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05/03/2012 às 22:36 Wallace Abreu – jornalismo@portalamazonia.com

Enfermeiros denunciam ausência de leitos de UTIs

Segundo a Coopenfint, a situação de descaso leva à precariedade do atendimento de pacientes de todas as faixas etárias.

Amazonas possui 319 leitos de UTI, todos na capital / Foto: Divulgação

MANAUS – Mesmo com a oferta de UTIS compatíveis com as determinações do Ministério da Saúde, os leitos não conseguem atender a demanda de pacientes no Amazonas. Além da quantidade inferior ao número de usuários atendidos diariamente nos hospitais e unidades de saúde da rede pública estadual, alguns leitos estão sem utilização. O quadro de descaso ainda é uma realidade e a situação leva à precariedade do atendimento de pacientes de todas as faixas etárias, segundo denúncia da Cooperativa dos Enfermeiros Intensivistas do Amazonas (Coopenfint).

A presidente da cooperativa, Suzany Teixeira, destacou que o número de leitos de UTI disponíveis não supre a demanda na prática. “Além do baixo número de leitos existentes, ainda temos outro problema, pois desse total, alguns leitos não estão em uso. Só na UTI no Hospital João Lúcio, dos 30 leitos existentes, apenas 18 estão em funcionamento”, ressaltou Suzany. O Amazonas dispõe de 319 leitos de UTI, sendo 10 centros de UTIs de atendimento adulto, 6 pediátricos e 11 neonatais.

O número de UTIs obedece aos parâmetros estabelecidos pela portaria nº 1101/GM de 12 de junho de 2002, elaborada pelo Ministério da Saúde, segundo a presidente da Sociedade Amazonense de Terapia Intensiva (Sati), Liane Cavalcante. “A média é de três leitos para cada mil habitantes.  Os leitos de UTIs devem somar de 4% a 10% do total de leitos hospitalares, o que corresponde de um a três leitos para cada dez mil habitantes. Portanto, dos 319 leitos, existe um para cada 8.777 habitantes no estado o que contempla o preconizado por esta portaria”, analisou.

Espera pode levar à morte

Para Suzany, a disposição de leitos revela a fragilidade de atendimento em todo o Estado. As cidades localizadas no interior não possuem Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e quando necessário os pacientes são transportados às pressas para a capital. São Gabriel da Cachoeira, Tabatinga, Parintins e Tefé também não contam com ambulâncias do tipo UTI. As salas de reanimação são usadas para estabilizar os pacientes até eles terem condições de remoção. Devido à dificuldade no transporte e demora no atendimento, muitos chegam sem vida a Manaus.

Apesar da situação alarmante, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam) informou que há desinteresse de médicos intensivistas em atuar nestes municípios. A Susam destacou que para a criação de UTIs, no padrão estabelecido pelo Ministério da Saúde, é necessária a atuação de equipes profissionais, com intensivistas 24 horas. O Estado aposta na formação de médicos especialistas e na “importação” de médicos formados no extertior para amenizar a situação. O Governo também recorre a contratação de UTIs aéreas para atender os pacientes em casos de urgência.

UTIs só em Manaus, mas na prática…

O baixo número e a inutilização de leitos são apontados como causas da insuficiência de UTIs em Manaus. “No Hospital João Lúcio, dos 30 leitos existentes, apenas 18 estão em funcionamento, por conta da falta de manutenção dos equipamentos nos demais 12 leitos em desuso”, ressaltou Suzany. A unidade sofre com falta de equipamentos essenciais para a estrutura de um leito de UTI, como ventiladores, monitores, bombas de fusão e até mesmo a falta de camas. Questionada sobre os leitos desativados, a assessoria de comunicação da Susam não se pronunciou sobre o caso.

Outro fator determinante para a carência está na redução de leitos rotativos. Segundo a presidente da Coopenfint, há pacientes com pelo menos nove anos dentro de uma UTI. “Com isso, o número de leitos rotativos fica bem mais reduzido”, destacou. Para ela, todas as UTIs no Amazonas são frágeis quanto a disposição de leitos. “Quando falamos de UTIs neonatais esta fragilidade se torna bem maior. Temos tido muito caso de nascimentos prematuros no estado, e o número de leitos neste setor não atende o número de pacientes”, destacou Suzany.

Nos corredores e salas de reanimação

A presidente da Coopenfint faz um alerta para o período de espera dos pacientes por um leito nas Unidades de Terapia Intensiva. Alguns chegam a ser transferidos para salas de reanimação para dar lugar a outros casos mais graves. Quando não, aguardam nos próprios corredores dos hospitais.

“Há casos de pacientes que ficam esperando até oito dias em uma sala de reanimação, quando de fato deveriam ficar apenas algumas horas seguintes ao pós operatório. Em outros casos, para dar espaço a um paciente em estado mais grave, pacientes são retirados das UTIs, não estando totalmente recuperados e acabam ficando nos corredores aguardando leito”, explicou Suzany. A Susam também preferiu não comentar a situação.

No último dia 13, uma menina de 11 anos morreu à espera de uma UTI no Pronto-Socorro da Zona Oeste de Manaus. O caso chamou a atenção para a quantidade de leitos disponíveis. A criança aguardava por um leito em algum hospital infantil da rede pública, mas não conseguiu vaga por causa de lotação em todas as unidades. Na ocasião, a Susam confirmou a lotação, mas alegou que nestes casos os pacientes são encaminhados para hospitais particulares. Segundo a pasta, a menina recebia cuidados similares aos de uma UTI na sala de reanimação, e por isso não foi transferida.

Transferência para hospitais particulares

Segundo a presidente da Sati, Liane Cavalcante, quando não há leito disponível de UTI na rede pública, a direção do hospital entra em contato com a Secretaria de Saúde do Estado. A pasta tenta conseguir outro leito dentro da própria rede . Na inviabilidade da transferência, o atendimento é terceirizado para a rede privada. Ainda assim, na avaliação da médica, todas as UTIs de Manaus estão em condições de uso e equipadas com tecnologias de última geração.

Ela salientou que o Governo do Estado investe na Saúde, principalmente com a criação de novas UTIs e a ampliação das já existentes, mas melhorias no serviço básico ajudariam a reduzir a superlotação dos leitos. Para Liane, a prevenção é a melhor alternativa para evitar a lotação das UTIs.

“O controle adequado de hipertensão arterial e do diabetes, uma política de prevenção de acidentes e de doenças oncológicas, assistência pré-natal adequada e campanhas educacionais para a  redução do consumo de bebida alcoólica e drogas ilícitas podem contribuir para a diminuição da ocupação de leitos de UTI”, sugeriu.

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