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25/09/2012 às 12:10 Redação - jornalismo@portalamazonia.com

Igarapés de Manaus podem desaparecer com poluição, diz biólogo

De acordo com Jansen Zuanon, a degradação dos igarapés também leva ao desaparecimento dos peixes da região

Igarapé de Petrópolis. Foto: Tabajara Moreno/ Arquivo Inpa

MANAUS – Na contramão da preservação, a capital amazonense apresenta igarapés em péssimo estado. É o que afirma o biólogo Jansen Zuanon, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Em tom de bate-papo, o pesquisador vai palestrar sobre o assunto no Teatro Direcional nesta quarta-feira (26), às 19h30. Ele adiantou alguns pontos a serem destacados no encontro.

O principal problema enfrentado pelos igarapés da cidade é a poluição proveniente dos esgotos, do lixo e dejetos humanos que são descartados de forma irregular. Se a degradação continuar do jeito que está a tendência, segundo Jansen Zuanon, é que os igarapés da cidade desapareçam.

A situação dos igarapés também compromete a existência dos peixes da região. A poluição no meio ambiente aquático resulta na morte desses animais, que têm valor significativo para o local. “Os peixes são fonte de alimento e sustento em grande parte da Amazônia, mas em Manaus isso não acontece porque praticamente não há como sustentar vida em águas tão poluídas”, afirma Zuanon.

Para se ter ideia, a Reserva Florestal Adolpho Ducke tem aproximadamente 70 espécies de peixes em um raio de 100km². Já iguarapés como o do Míndu ou Quarenta, têm apenas 6. De acordo com Jansen, algumas espécies podem ter sido extintas sem nunca terem sido pelo menos, catalogadas e estudadas. “Não se pode mensurar o quanto a cidade já perdeu da riqueza e biodiversidade aquática existente nos rios que cortam capital”, avalia.

O peixe tamuatá surpreendeu o biólogo. Nos igarapés pesquisados, a espécie resiste à poluição dos rios. “É a conhecida luta pela sobrevivência”, afirma o pesquisador. Segundo Zuanon, o tamuatá é um peixe de várzea, de rios volumosos e barrentos. E por ser capaz de retirar oxigênio do ar e da água, ainda é encontrado em alguns trechos de igarapés urbanos poluídos. “Vale ressaltar que o consumo desses peixes é proibido. Eles ficam expostos à poluição e podem trazer graves consequências à saúde dos humanos”, alertou o biólogo.

Prosamim

Para Zuanon, o processo de recuperação dos igarapés da cidade realizado pelo poder público estadual é totalmente inadequado do ponto de vista ambiental. “As pessoas certamente estão mais felizes por terem residências dignas e a aparência desses lugares melhorou. Não tiro o mérito disso. Mas não seria possível dizer que essa suposta recuperação salvou os igarapés”, afirmou o pesquisador, referindo-se ao Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim).

De acordo com o biólogo, os principais rios da cidade estão poluídos e estão sendo subutilizados ou mal aproveitados. “Não servem para transporte intermodal, os peixes não podem servir de alimentos e a própria água não é usada para consumo humano”, disse.

Para Zuanon, a forma mais eficiente de garantir a sustentabilidade dos rios seria a criação de políticas públicas voltadas para os igarapés. Ele lembra que o entorno dos rios pode servir para a construção de praças, o que ajudaria a refrescar a temperatura da capital. Em locais próximos a igarapés a temperatura pode ser mais baixa em até 4 graus.

Zuanon enumera algumas sugestões para salvar os igarapés da cidade.  “Primeramente é essencial uma rede de esgosto eficiente e sustentável para frear a poluição nos rios. Outra solução seria usar dragas para limpar os igarapés e, assim, ajudar a natureza a recuperar os rios por meio das chuvas.

Igarapés da Amazônia

A relação de estreita dependência com a floresta faz com que alterações no ambiente terrestre afetem direta e indiretamente o sistema aquático, tanto em sua estrutura (habitats) como em suas funções ecológicas. Assim, alterações ambientais como as produzidas pelo desmatamento e poluição podem condenar os pequenos igarapés ao desaparecimento, especialmente em ambientes urbanos.

A região Amazônica possui a maior bacia de drenagem do mundo, com cerca de 7.000.000km². É formada por uma diversidade de corpos d’água, não somente grandes rios e lagos, mas também inúmeros riachos que constituem uma das redes hídricas mais densas do mundo. Com exceção dos rios maiores de águas brancas, cujas nascentes se encontram nas altas cadeias de montanhas andinas, quase todos os rios amazônicos são resultantes da junção de pequenos igarapés que drenam a floresta.

Os riachos amazônicos, em sua maioria, apresentam águas ácidas, devido à presença de ácidos húmicos e fúlvicos e são pobres em nutrientes. Entretanto, mantêm uma fauna rica e diversa, sustentada energeticamente principalmente pelo aporte de material orgânico (folhas, galhos, flores, frutos) proveniente da floresta ripária. Esta dependência trófica deve gerar uma associação marcada entre as características da floresta que circunda o igarapé e a riqueza em espécies, a repartição de espécies em grupos funcionais e a abundância de determinados grupos dentro da comunidade

Palestra

Toda última quarta-feira de cada mês, o Teatro Direcional recebe palestras sobre as pesquisas realizadas na região. O evento  integra o projeto Ciência às 7 ½, do Museu da Amazônia (Musa). As palestras começam às 19h30. Nesta quarta-feira (26) Jansen Zuanon levará ao Teatro a palestra “Os peixes de igarapés da região de Manaus: beleza desconhecida e ameaçada”. O Teatro Direcional fica na praça de alimentação do Manauara Shopping, localizado na Avenida Mário Ypiranga Monteiro, nº 1.300, bairro Adrianópolis.

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