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02/02/2013 às 8:15 Juçara Menezes - jornalismo@portalamazonia.com

Famílias de Parintins convivem com fenômeno das terras caídas

A comunidade de São Sebastião, em Parintins, reúne famílias que enfrentam o desafio da pesca de subsistência, da educação base e do entretenimento.

A comunidade tem 69 famílias, divididas entre as religiões e o amor aos bumbás Caprichoso e Garantido. Foto: Juçara Menezes/Portal Amazônia

A comunidade tem 69 famílias, divididas entre as religiões e o amor aos bumbás Caprichoso e Garantido. Foto: Juçara Menezes/Portal Amazônia

PARINTINS – Maria, Luiza, Adailton, Aldenora. Estes são os nomes de pessoas que fazem a diferença em Brasília. A comunidade localizada a esquerda do rio Amazonas, em Parintins (AM), guarda a tradição da pesca de subsistência e a sina do caboclo ribeirinho de enfrentar os desafios e vencer obstáculos da selva amazônica.

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A comunidade reúne 69 famílias, divididas entre as religiões e o amor aos bumbás Caprichoso e Garantido. Maria Eliana Costa Ribeiro é dona de casa e, com a experiência de 53 anos, afirma com convicção que não existe uma paixão pelos dois bois. “Ou corre o sangue vermelho ou o sangue é azul”, disse a católica.

A camaroeira (mulher pescadora de camarão) retira o alimento das águas entre os meses de julho e novembro. Na época da vazante, os moradores buscam alternativas para a sobrevivência. No local, plantam melão, melancia, milho e macaxeira. A enchente do rio impede a produção da lavoura, leva areia até as palafitas que erguem as casas e faz derrubar as árvores mais frágeis: tocos de madeira espalham-se pelas águas, dificultando a navegação.

O rio Amazonas, porém, é farto em peixes de várias espécies e generoso o ano inteiro. Além de servir como lavanderia para os caboclos, também põe na mesa o almoço e o jantar das famílias. Em cerca de meia hora, o pescador Adailton Damaceno retirou mais de 20 pacus, um surubim e uma piramutaba.

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Casado, com dois filhos, torcedor do Garantido e membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Adailton conta que a vida é ‘meio sofrida’, mas não troca Brasília por Parintins, muito menos pela capital brasileira. “Esperamos a ajuda dos políticos lá do Distrito Federal. Queremos um olhar mais respeitoso à nossa gente. Somos seres humanos honestos, há vidas aqui tão importantes quanto na cidade”, desabafa.

O apelo tem razão de ser. A cada instante, embarcações de vários tamanhos passam na margem da Vila, criando uma onda contendo força e velocidade. O banzeiro se choca com a várzea, levando pedaços de terra, destruindo escadas de acesso e até afundando barcos. Os botes precisam ser amarrados em mastros, que por vezes sucumbem à energia das águas. A vigília é constante para não perder o único meio de transporte e proteger a vida das crianças da comunidade.
Educação e desafios
Escola. Foto: Juçara Menezes/Portal Amazônia

Escola. Foto: Juçara Menezes/Portal Amazônia

Os pequenos da Vila recebem tratamento diferenciado. A Escola Municipal São Sebastião trabalha nos turnos matutino e vespertino, do maternal à 5a série e até a 8a série, respectivamente. A professora de educação infantil, Aldenora Navegante, é formada em Química e dá aulas para crianças de 5 a 7 anos.

A sala da professora tem cerca de 15 alunos, que comporta o maternal, o primeiro e o segundo períodos, em apenas um ambiente. O trabalho com as turmas mistas acontece por falta de espaço: há poucas crianças em cada etapa e não é possível distribuí-las as salas somente para três ou quatro alunos.

“É um desafio diário.  A realidade é muito diferente do ensinado na universidade e o que acontece na cidade. Na capital, a estrutura é boa com água encanada, luz elétrica e material para trabalhar”, explica a professora.

Aldenora explica que na comunidade se compra o gelo e o ventilador vem da própria natureza. “Ainda enfrentamos a ausência dos pais no auxílio junto aos estudantes. Os adultos precisam sair para pescar, ganhar a vida, e acham que a educação só é na escola”, afirmou a professora.

A 'quadra de esportes' é o campo improvisado, de várzea, com mato crescente, solo irregular, com buracos por toda a parte, em frente à casa do pescador Odevaldo Silva Gomes. Foto: Juçara Menezes/Portal Amazônia

A ‘quadra de esportes’ é o campo improvisado, de várzea, com mato crescente, solo irregular, com buracos por toda a parte, em frente à casa do pescador Odevaldo Silva Gomes. Foto: Juçara Menezes/Portal Amazônia

Quadra de esportes
A ‘quadra de esportes’ das crianças é o campo improvisado de várzea. Ali encontra-se total abandono, com mato crescente, solo irregular, buracos por toda a parte, localizado em frente à casa do pescador Odevaldo Silva Gomes. Ele conhece a rotina dos jogos de futebol da garotada, acompanha as partidas e ouve a algazarra geral.
Acabado o horário da aula, mais uma correria habitual. Dessa vez, para chegar ao transporte escolar: o barco Comandante Nadaiby, fretado pela Prefeitura de Parintins para levar os pequenos de Brasília. São oito paradas até o destino final, a Comunidade ‘Cá te Espera’.
Ao todo, são 22 crianças da manhã, mais 12 no turno vespertino, e cada um tem seu lugar próprio na embarcação. Os quatro profissionais se recolhem à casa localizada atrás da escola, cedida pela Prefeitura como ‘lar’.
Aldenora conta ter o sonho de seguir carreira, começar o mestrado e iniciar as pesquisas na área química, sua paixão. “Aceitei me mudar para Brasília e enfrentar as dificuldades há sete meses. Neste tempo, entendi que não é preciso ter medo de encarar a vida, de se superar. Conheci pessoas diferentes, de vivências fora do comum. Aprendo e ensino diariamente aqui”, assinalou.
Questionados sobre o porque de enfrentar todos os dias tantas dificuldades, os moradores são unânimes: na cidade, é preciso dinheiro para sobreviver, comprar o peixe, pagar o aluguel, ouvir buzinas, temer pelas brincadeiras das crianças na rua. Para eles, a felicidade está deste lado do rio Amazonas.

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