Portal Amazônia » Notícias » Matéria

educacao-3

06/05/2013 às 16:40 Izinha Toscano - jornalismo@portalamazonia.com

Educação indígena no Amazonas ainda está ‘em processo lento’, diz Seind

Liderança de povos tradicionais no Estado afirma que educação indígena ainda precisa 'avançar' para atender a real necessidade de indígenas.

Foto: xxxxx/ Agência Acre

Foto: Divulgação/ Agência Acre

MANAUS – Entre lideranças indígenas, especialistas em educação e antropólogos, a educação indígena é tema de debates frequentes. Regulamentada a partir a Constituição de 1988, um sistema diferenciado é garantido no Plano Nacional de Educação, aprovado pela Lei 10.172 de 2011. As diretrizes estabelecem medidas para manter valores culturais, artísticos e étnicos.

No Amazonas, Estado com 183 mil indígenas, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a educação indígena está em “processo lento” para se atingir a real necessidade do Estado, segundo o titular da da Secretaria de Estado para os Povos Indígenas do Amazonas (Seind), Bonifácio José Baniwa.

Apesar do longo caminho a ser percorrido, Baniwa avalia que as conquistas da educação indígena nos últimos 10 anos foram avanços significativos. “Ainda é pouco, mas é um avanço muito grande”, constatou. De acordo com o secretário, o Amazonas tem 31 escolas de ensino médio e anexos em terras indígenas que atendem cerca de 2,8 mil alunos. Baniwa apontou ainda a conquista no ensino superior. Através das cotas, aproximadamente mil alunos estudam nos 46 cursos oferecidos aos indígenas na Universidade do Estado do Amazonas.

A real necessidade das comunidades indígenas do Amazonas levam o secretário adjunto da Seind, José Mário Mura, a apostar na educação como a nova bandeira do movimento indígena. “Antes lutávamos pela demarcação territorial. Hoje acredito que a educação deve se tornar o objetivo das novas lutas dos indígenas”.

A grande barreira, para Mura, é a aplicação de investimento financeiro. “O investimento existe, mas não é aplicado. Quanto o município não oferece a educação diferenciada, o indígena é “empurrado” para outras cidades, desestruturando sua comunidade”, revelou. Entre as preocupações do secretário adjunto, que é professor indígena, está a falta de capacitação dos indígenas para evitar problemas sociais como alcoolismo, uso de drogas e prostituição. “É importante levar informática e cursos técnicos, como manutenção de motores e enfermagem” priorizou.

Leia mais: 
Amazonas ganhará centro de formação superior para professores indígenas
Indígenas de Roraima cobram votação de projetos de lei

Para a gerente de de Educação Indígena Escolar da Secretaria de Estado de Educação e Qualidade de Ensino do Amazonas (Seduc), Alva Rosa, a educação de indígena está avançado em alguns municípios. Alva destaca São Gabriel da Cachoeira como um exemplo para o Estado. Atualmente o município, que segundo o Ibge tem 29 mil indígenas entre sua população de 37 mil pessoas, tem sete escolas que oferecem séries iniciais e ensino médio. Os indígenas estão presentes ainda no quadro de funcionários das escolas, incluindo gestores e professores. A gerente apontou ainda que na região do Alto Solimões, Tabatinga e Benjamin Constant também estão adiantadas em relação ao resto do Amazonas.

Para os próximos anos, o titular da Seind acredita que o cenário da educação indígena é otimista. “Esperamos implementar uma política conforme se discute nas comunidades. O Estado não deve criar uma política para os povos indígenas, ele deve respeitar cada povo e conduzir na formulação das políticas”, concluiu.

Formação de professores

Desde 2000, a Seduc forma professores indígenas através do Projeto Pirayawara, incluindo o secretário adjunto da Seind, José Mário Mura, da turma de 2003. O projeto é responsável pela formação inicial e continuada de professores e atualmente está formando mais 60 professores da etnia Mura para atender Tefé e municípios adjacentes, segundo Alva. O processo de escolha dos futuros professores que estudarão no Projeto Pirayawara acontece em reuniões nas próprias comunidades, com a participação de lideranças e membro dos grupos. Após a conclusão do projeto, os então professores voltam para a comunidade para ensinar o que foi aprendido.

A participação das lideranças também é efetiva na discussão dos projetos político-pedagógico de ensino das escolas indígenas. Os currículos do ensino fundamental e médio utilizam a base nacional comum, mas devem ser complementadas de acordo com as necessidades de cada etnia. Somente a interação entre as populações indígenas junto com a Seduc permitem que o sistema de educação seja, de fato, diferenciado.

“Além do diferencial da língua indígena, as escolas tem com ideologia principal primeiramente ensinar a história da comunidade, do município, do estado e posteriormente, do Brasil. Só depois vem o conhecimento da história dos não-índios e dos chamados conhecimentos técnicos e científicos da sociedade envolvente” disse Mura, que lecionou por 6 anos em sua comunidade em Autazes.

COMENTÁRIOS