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01/09/2012 às 11:30 Gláucia Chair, especial para o Portal Amazônia

Presidente da Rede Amazônica, Phelippe Daou relembra trajetória

No dia 1º de setembro de 1972, a TV Amazonas entrava oficialmente em operações. O jornalista Phelippe Daou conta como tudo aconteceu.

Presidente da Rede Amazônia, Phelippe Daou. Foto: Isaac de Paula/Portal Amazônia/Arquivo

Presidente da Rede Amazônia, Phelippe Daou. Foto: Isaac de Paula/Portal Amazônia/Arquivo

MANAUS – No dia 1º de setembro de 1972, a TV Amazonas entrava oficialmente em operações, após 30 dias de testes experimentais. A cerimônia de inauguração fez parte das comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil no Amazonas e marcou o início da transmissão em cores no País. Ao completar 40 anos desde aquele dia histórico para a comunicação na Amazônia, o presidente da Rede Amazônica, Phelippe Daou, concedeu a seguinte entrevista ao portalamazonia.com:

Como foram os primeiros planos dos fundadores para a Rede Amazônica?

Quando se pensou em televisão, nós, os companheiros que fundamos a Rede Amazônica, desejávamos, não mais uma televisão para Manaus. Era uma televisão para a região amazônica ou Amazônia ocidental: Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. Claro, depois veio o Amapá, porque tínhamos direito a cinco concessões. Quando nos foi perguntado qual iríamos fundar primeiro, já que participávamos de todas as concorrências, dizemos que queríamos o Amapá. O Ministério assustou-se. Para ele, escolhemos a mais difícil, mas respondemos que o que queríamos era despertar a região.

Quais as maiores lembranças do período inicial?

Na verdade, são tantas lembranças, mais tantas e tantas, que é até muito difícil lembrar o que foi mais fácil e o que foi mais difícil. Mas o que nos lembra fundamentalmente é que quando partimos para montar e ganhamos a concorrência, canal 5, Amazonas, Manaus, o sistema que vigorava no País de televisão era preto e branco. Nós já havíamos realizado o negócio com o fornecedor dos equipamentos, encomendamos aparelhos para televisão em preto e branco com o mínimo indispensável para levarmos a frente o nosso trabalho. Pouquíssimo tempo depois dos preparativos iniciais, o governo baixou um decreto dizendo que sistema de televisão no Brasil seria em cores. O que fazer? Vimos que a distância da execução era muito maior do que havíamos dimensionado. E fomos ao banco que nos financiava explicar a situação.

E o banco aceitou financiar equipamentos em preto e branco?

Não aceitou apesar de explicamos que naquele momento não era determinante que fossemos mudar de sistema, pois desejávamos inaugurar em preto e branco. Acontece que o banco não aceitou essa ponderação. O gerente informou-nos que a ordem era financiar televisão em cores. Ou se fazia em cores ou não haveria financiamento. Foi um toque de terror. Mesmo sendo em preto e branco já era uma dívida de tirar o sono de qualquer um. Era um desafio para qualquer cidadão que passou a vida toda como funcionário de uma empresa. Uma verdadeira aventura comprar esse equipamento em cores. Nem havia na época equipamentos todos em cores. Era um novo sistema, apenas os países de primeiro mundo contavam com esses aparelhos. Dissemos ao banco que a instituição correria o mesmo risco que estávamos correndo. Não tínhamos mais garantias, além daquelas oferecidas para o financiamento em preto e branco. Como garantia havia um terreno que ainda hoje eu moro. Se um dia eu tivesse que contar a história da minha vida, eu diria que a conta desse terreno serviu de garantia para tudo.

E sem oferecer outras garantias, houve nova proposta por parte do banco?

O gerente disse para fazermos o financiamento para o equipamento em cores. Tínhamos muito conhecimento com o gerente do banco e com seus antecessores, já que éramos repórteres. Na época, o banco se chamava London Bank, era um banco inglês, figura de proa do desenvolvimento de Manaus, que hoje é chamado de Loyds Bank e atuava como um banco regional na cidade. O gerente nos explicou que o risco que o banco teria conosco apenas iria se ampliar um pouco, já que o financiamento aumentaria em quase 50% do valor pedido inicialmente. O gerente disse que se aceitássemos, usaria as mesmas garantias acordadas no financiamento em preto e branco e argumentou que se um dia tivessem que reaver o equipamento, poderiam vendê-lo para terceiros, já em preto e branco ninguém iria querer comprar os aparelhos. Fomos à luta, aceitamos o desafio. E foram chegando os primeiros equipamento. Posso dizer que um videocassete que veio nessa ocasião, um PR60, era a máquina mais moderna do mundo naquele momento.

E havia pessoas para operar esses equipamentos em Manaus?

Não tínhamos em Manaus ninguém preparado para isso. Tínhamos pessoas que tinham noção e botavam os equipamentos para funcionar. Naquele momento havia duas televisões na cidade, uma que operava também com a Globo que estava em revolução e outra mais organizada que pertencia aos associados. Teríamos que concorrer com esse pessoal sem ter com quem nos filiar. Teríamos que fazer uma clinica geral, sem ter programa e nem filme para exibir.

E onde a emissora funcionou no primeiro momento?

Nem quero falar da odisséia para funcionar. Montamos no terreno de um dos companheiros fundadores. O terreno era de propriedade dele, mais servia como garagem para os carros que eles tinham. E ali, fazer surgir a empresa na Carvalho Leal, que não era um bairro como é hoje foi outro desafio. A Cachoeirinha era um bairro distante e sem maior expressão. Foi para lá que nós fomos, contando com um projeto. Ainda hoje quem passa por lá, verifica que quem desenhou o projeto foi o arquiteto Severiano Porto. Era um projeto simples, mas contava com um dos melhores estúdios que o País conheceu. Os melhores técnicos do Brasil eram amigos do Severiano e contribuíram com ele para que tivéssemos o melhor.Isso ficou profundamente marcado na nossa vida.

E a empresa logo de início conseguiu vencer as limitações?

Sempre atribuímos a Deus a proteção, de ter assumido a responsabilidade e quitado até o final. Terminamos de pagar com muito suor, muitas lágrimas, mas realmente aconteceu e justamente para quem tinha uma ideia de não ficar em Manaus. Eu não preciso dizer que passamos noites sem dormir, pensando se aquele plano original iria à frente. A sustentação para fazer funcionar a emissora em cores levou muito sangue, suor e lágrimas, mas uma coisa dizia: “Não, vocês não podem parar, porque se vocês pararem, vocês vão morrer onde estão”. Manaus não tinha como suportar três televisões, como não suportava. As outras suportavam porque eram afiliadas a outras redes. Nós tínhamos que exibir conteúdos produzidos por nós ou teríamos que pagar preços altos por programas, coisa que a empresa não suportaria na ocasião.

Como era o conteúdo produzido nos períodos iniciais?

Logo no começo tínhamos de 10 a 12 horas ao vivo de programação. Todo mundo se admirava. Por quê? Era porque não tínhamos programação comprada. Eram todas as classes socais desfilando e falando, afinal era o único conteúdo que podíamos fazer. Na realidade, o custo era quase nenhum, a não ser a movimentação dos equipamentos de um lado e de outro. Os personagens não, porque eles até gostavam de aparecer e dar entrevista. Essa é a grande recordação que nos fica do nascimento da Rede Amazônica.

E daí vieram as emissoras de outros estados….

Fomos caminhando Já tínhamos o Amapá, o Amazonas e depois veio a TV Rondônia, TV Roraima e finalmente a TV Acre. O Ministro das comunicações foi ao Acre no dia da inauguração. Ele até duvidada que uma televisão pudesse ser montada ali, tamanha era a pequenez da cidade. Quando inauguramos era uma televisão também muito humilde, muito pequena. Recentemente eu trouxe o Ministro da época para a inauguração da TV digital e disse a ele: “Agora o senhor vai ver a televisão mais moderna do Norte do Brasil”.

Quais foram os grandes sonhos que impulsionaram tantos desafios?

Quem ver uma grande tela que está afixada numa parede na entrada da Rede Amazônica vai ver que fomos impulsionados por várias coisas. Em dois anos montamos uma rede em tempo recorde e sempre encontramos eco da população. Cada um colaborava como podia. Tomávamos também muitos cuidados para não cairmos em uma esparrela. Muitas pessoas diziam que não tinham como colaborar, mas que queriam imensamente a emissora, que isso daria nova vida à cidade. E chegamos a uma conclusão: Quem não parte, não chega a lugar nenhum. Você vai ver que há essa mensagem lá no painel. E existe outra mensagem que foi colocada na tela depois que a rede foi montada. É de um pequeno jovem. Na conversa ele disse: “Só o que é verdadeiro permanece para sempre”. Começamos a observar esse princípio. Pensávamos que devíamos continuar porque era verdadeiro o nosso ideal. Ainda hoje a Rede Amazônica é mais ideal do que empresa. A Rede Amazônica apenas raciocina como empresa em seus compromissos. Graças a Deus, quanto mais surgiram dificuldade

s no passado, mais força tivemos para enfrentar e agrupar pessoas idealistas. Quando nos demos conta, estávamos com a rede e com uma enorme responsabilidade para mantê-la funcionando.

E no princípio, a Rede só funcionava nas capitais?

Phelippe Daou: Só nas capitais, mas esse não era nosso desejo. Queríamos a televisão de ponta a ponta. Mas como fazer isso, se não havia recursos? Tudo isso nos levava a conversar com os fabricantes. Pedíamos que nos vendessem modelos mais simples, modelos que não fossem tão sofisticados, que não precisavam ter uma durabilidade de trinta anos. Assim fomos levando à televisão para a Amazônia.

Com essa mesma ideia foi promovida a estadualização da Rede?

Phelippe Daou: Quando se falou no primeiro dos dois grandes projetos de nossa empresa, a estadualização da rede, posso dizer que foi uma das coisas que mais nos comoveu. Naquele momento que promovemos a estadualização, obtivemos espaço no satélite e a garantia de cobrir todos os municípios de cada estado. Realizamos o primeiro grande sonho. Quando veio a digitalização, ai era questão de investimento. E claro, a gente não descansava, a gente saia de um projeto e entrava no outro, mas é assim mesmo, quem está na chuva é para se molhar. Todas as emissoras receberam transmissores novos. As cento e tantas retransmissores também receberam retransmissores novos, uns de maior potência, outros de potencia igual.

E depois da estadualização, partiu-se para a digitalização…

Partimos para a digitalização. No mesmo tempo que montamos a rede digitalizada, instalamos as cinco estações, todas absolutamente iguais. Nós só imitávamos Getúlio Vargas na prática. Para nós, não há estados grandes e nem pequenos, todos são absolutamente iguais. A estação de Roraima é a mesma que tem em Rio Branco e em Rondônia, a mesma que tem em Macapá, e a mesma que tem em Manaus, conforme foi verificado pelo próprio ministro das comunicações.

E como é agora olhar para esse império de comunicações e fazer 40 anos?

Nós estamos entrando nos 40 anos com muita alegria, imensamente gratos à população da Amazônia. Um dia, um dos ex-presidentes, o Médici disse que “A Amazônia era desafio que unidos venceremos” e logo a seguir veio outro presidente que disse: “O Brasil atrasou-se em relação à Amazônia”. Mostramos agora que a Amazônia apresenta-se absolutamente nova, uma região bem aparelhada, como muitas regiões não estão aparelhadas.

E quais serão os novos passos da Rede Amazônica?

Nosso desejo para o futuro é fazer com que nossa empresa possa prestar os serviços que ela presta, mas cada vez com maior velocidade para que a Amazônia seja o referencial. Nosso empenho será não apenas manter uma rede de televisão. Queremos mostrar essa região que todos falam que é o futuro do Brasil. Nosso empenho será o de nos organizarmos para mostrar que essa é a grande verdade.Veja quantas coisas aconteceram ao longo dessa batalha: o gás, a companhia de petróleo, tudo aquilo que era sonho se tornou realidade. E agora vamos enfrentar mais fortemente o que enfrentávamos antes. Queremos contribuir para ligar o Norte ao Sul do Brasil.

E como será essa luta?

Vamos trabalhar para a ligação do Amazonas não pelo sinal de televisão, mas pela ligação física. Onde tiver um rio que se faça uma ponte para a união de uma margem a outra. Já temos a Ponte Rio Negro em Manaus, estamos batendo o rio Madeira em Rondônia agora unida ao Amazonas por meio de outra ponte. O presidente veio e abriu os caminhos da região para a Bolívia, para o Peru. Temos ligação com a Republica da Guiana Francesa, além de uma estrada que nos liga à Venezuela. O que queremos é pedir para a presidenta Dilma que construa uma ponte sobre o rio Solimões, ligando o Amazonas ao Sul do Brasil e com saída para os países que fazem fronteira conosco. Se prestarmos serviços à Amazônia, estaremos prestando serviço ao Brasil. Se o mundo diz que a Amazônia é a região mais importante do momento, também estaremos prestando serviço ao planeta, com preservação e desenvolvimento. Desejamos tudo isso, sem derrubar a floresta, sem derrubar coisa nenhuma, tirando apenas o que é necessário. Então abriremos caminhos para a Amazônia ser habitada e todos participarem da riqueza que ela tem.

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