MANAUS – Em meio a enchente, que chama a atenção dos moradores de Manaus, as águas do Rio Negro invadem avenidas centrais e causam prejuĂzos a comerciantes. O rio Ă© ainda mais cruel com a população da orla da capital. Em palafitas, que mais parecem casas improvisadas, na verdade - residĂŞncias permanentes - a população, agora flutuante, assiste impassĂvel, a subida das águas.
Moradores em casas alagadas, acompanham por meio de rádios de pilha ou nas televisões a cabo – ligadas com fiações clandestinas – o anĂşncio do nĂvel do rio. Esperam que o Serviço GeolĂłgico revele nĂşmeros animadores, que as águas comecem a baixar. NĂŁo foi o que aconteceu nesta quarta-feira (16). Quando o dia amanheceu, Manaus soube que o rio Negro batia a marca de 29,78m, o maior nĂvel já registrado.
De dentro de um barco, saindo do Porto de Manaus, a equipe de reportagem do Portal AmazĂ´nia percorreu a orla da capital. Na primeira parada, numa das casas inundadas, conhecemos AntĂ´nia Nazário, uma descendente de indĂgenas, de 56 anos. Ela mora na palafita com mais sete pessoas, inclusive os netos. Revela que nĂŁo pretende sair da área alagada porque nĂŁo tem para onde ir. “Eu vim de Tabatinga, há mais de 20 anos. Sempre morei aqui e nĂŁo quero sair desse lugar. TambĂ©m nĂŁo quero voltar para o interior. Lá Ă© muito pior, nĂŁo tem emprego e nem nada. Viviamos da roça, sem nenhuma esperança de melhorar de vida. Aqui em Manaus tem emprego para a famĂlia. Falaram que vĂŁo nos tirar daqui. O pessoal do Prosamim passou, cadastrou todo mundo, mas sumiu e nunca mais voltou. Está muito difĂcil ficar aqui. Ă€s vezes entram bichos e atĂ© peixes dentro de casa. NĂŁo dá para comer os peixes, estĂŁo todos cheirando Ă gasolina. Nosso pescado a gente vai buscar na Feira da Panair. Meu marido está desempregado. O trabalho dele Ă© içar os barcos lá para cima, mas com o rio cheio, os barqueiros nĂŁo precisam do serviço. Estamos todos os sete aqui, vivendo com o salário mĂnimo da minha aposentadoria”.
AntĂ´nia fala com a reportagem e se levanta. Pendura uma roupa no varal . No rosto nĂŁo há alegria, mas tambĂ©m nĂŁo há desespero. Sabe que vai chegar a hora do rio ir embora e a vida voltar ao normal, como tudo na AmazĂ´nia. SĂł nĂŁo entende porque nos Ăşltimos cinco anos as cheias e as secas estĂŁo tĂŁo severas. “Nunca tinha visto nada igual, nos Ăşltimos anos tenho visto esse rio encher e secar. O pior da cheia sĂŁo os barcos que passam ligeiro demais, fazem ondas feias, ai vem o banzeiro. Parece que vĂŁo derrubar a casa, mas nĂŁo tenho medo nĂŁo, Ă© assim mesmo. NĂŁo tem para onde ir, fazer o quĂŞ?”, fala conformada.

enchente do Rio Negra deixa os moradores da capital sem opção. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
Seguimos viagem rumo a outros bairros alagados. De dentro do barco, olhando as casas submersas, o mundo parece ser da paz. Antenas parabĂłlicas, roupas no varal, outras casas abandonadas e fechadas.
Numa casa no bairro da GlĂłria, uma famĂlia assa peixes numa churrasqueira improvisada em um assoalho flutuante, uma espĂ©cie de quintal, em cima do rio. No local há tambĂ©m uma mesa de bilhar e no fundo uma mulher pinta as unhas de esmalte vermelho. O dono da casa aproxima-se do barco. Manoel Carvalho, de 43 anos, diz que Ă© pedreiro, mas que estes dias está sem trabalho. Questionado se permanecerá no lugar se o rio subir mais, diz que já subiu a maromba (assoalho) tudo o que podia. “Se eu subir mais, nossa cabeça vai bater no teto. Meu plano Ă© ir embora, mas ainda nĂŁo temos para onde ir”.
Um garoto sorridente, Juscelino Pereira, de 14 anos, senta na proa do barco. Perguntamos a ele se é filho do dono da casa e ele nega.
“Minha mĂŁe foi embora por causa da cheia. Eu fiquei com o Seu Manoel”. Perguntamos a ele o que o fez ficar naquele lugar alagado. Ele responde que gosta muito dali, o lugar Ă© calmo e pode pular no rio quando quiser “Mas pular no rio, com essa água suja?”, perguntamos. Ele responde que a água está suja agora porque o rio vai começar a baixar, mas quando nĂŁo tem enchente, é limpinho. Juscelino está sem estudar, disse que nĂŁo achou vagas para se matricular na rede pĂşblica de ensino.
Despedimos da famĂlia e seguimos viagem. Descemos do barco e passamos pela área alagada do centro de Manaus, onde fizemos muitas fotos. ImpossĂvel nĂŁo refletir sobre a tragĂ©dia da cheia na vida dessas pessoas, em moradias improvisadas. Retratos da AmazĂ´nia brasileira, tĂŁo rica e tĂŁo pobre…!
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De acordo com o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, a Floresta Amazônica corresponde a 1/3 das vegetações tropicais do mundo.
O site será lançado após o término das oficinas sobre ferramentas de internet que encerram no próximo dia 21 de maio, em Tabatinga.