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16/05/2012 às 19:25 Gláucia Chair - jornalismo@portalamazonia.com

Enchente evidencia pobreza em palafitas na orla de Manaus

A população flutuante assiste à subida das águas na orla da Capital

MANAUS – Em meio a enchente, que chama a atenção dos moradores de Manaus,  as águas do Rio Negro invadem avenidas centrais e causam prejuízos a comerciantes. O rio é ainda mais cruel com a população da orla da capital. Em palafitas, que mais parecem casas improvisadas, na verdade -  residências permanentes -  a população, agora flutuante, assiste impassível, a subida das águas.

Enchente Manaus 2012 - Foto: Diego Oliveira  - Portal Amazônia

Enchente recorde do Rio Negro em 2012. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

Moradores em casas alagadas, acompanham por meio de rádios de pilha ou nas televisões a cabo – ligadas com fiações clandestinas – o anúncio do nível do rio. Esperam que o Serviço Geológico revele números animadores, que as águas comecem a baixar. Não foi o que aconteceu nesta quarta-feira (16).  Quando o dia amanheceu, Manaus soube que o rio Negro batia a marca de 29,78m, o maior nível já registrado.

De dentro de um barco, saindo do Porto de Manaus, a equipe de reportagem do Portal Amazônia percorreu a orla da capital. Na primeira parada, numa das casas inundadas, conhecemos Antônia Nazário, uma descendente de indígenas, de 56 anos. Ela mora na palafita com mais sete pessoas, inclusive os netos. Revela que não pretende sair da área alagada porque não tem para onde ir. “Eu vim de Tabatinga, há mais de 20 anos. Sempre morei aqui e não quero sair desse lugar. Também não quero voltar para o interior. Lá é muito pior, não tem emprego e nem nada. Viviamos da roça, sem nenhuma esperança de melhorar de vida. Aqui em Manaus tem emprego para a família. Falaram que vão nos tirar daqui. O pessoal do Prosamim passou, cadastrou todo mundo, mas sumiu e nunca mais voltou. Está muito difícil ficar aqui. Às vezes entram bichos e até peixes dentro de casa. Não dá para comer os peixes, estão todos cheirando à gasolina. Nosso pescado a gente vai buscar na Feira da Panair. Meu marido está desempregado. O trabalho dele é içar os barcos lá para cima, mas  com o rio cheio, os barqueiros não precisam do serviço. Estamos todos os sete aqui,  vivendo com o salário mínimo da minha aposentadoria”.

Enchente Manaus 2012 - Foto: Diego Oliveira -Portal Amazônia

Manauaras adaptam-se ao Rio Negro. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

Antônia  fala com a reportagem e se levanta. Pendura uma roupa no varal . No rosto não há alegria, mas também não há desespero. Sabe que vai chegar a hora do rio ir embora e a vida voltar ao normal, como tudo na Amazônia. Só não entende porque nos últimos cinco anos as cheias e as secas estão tão severas. “Nunca tinha visto nada igual, nos últimos anos tenho visto esse rio encher e secar. O pior da cheia são os barcos que passam ligeiro demais, fazem ondas feias, ai vem o banzeiro. Parece que vão derrubar a casa, mas não tenho medo não, é assim mesmo. Não tem para onde ir, fazer o quê?”, fala conformada.

enchente do Rio Negra deixa os maradores da capital sem opção. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

enchente do Rio Negra deixa os moradores da capital sem opção. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

 

Seguimos viagem rumo a outros bairros alagados. De dentro do barco, olhando as casas submersas, o mundo parece ser da paz. Antenas parabólicas, roupas no varal, outras casas abandonadas e fechadas.

Numa casa no bairro da Glória, uma família assa peixes numa churrasqueira improvisada em um assoalho flutuante, uma espécie de quintal, em cima do rio. No local há também uma mesa de bilhar e no fundo uma mulher pinta as unhas de esmalte vermelho. O dono da casa aproxima-se do barco.  Manoel Carvalho, de 43 anos, diz que é pedreiro, mas que estes dias está sem trabalho. Questionado se permanecerá no lugar se o rio subir mais,  diz que já subiu a maromba (assoalho) tudo o que podia. “Se eu subir mais, nossa cabeça vai bater no teto. Meu plano é ir embora, mas ainda não temos para onde ir”.

Um garoto sorridente, Juscelino Pereira, de 14 anos, senta na proa do barco. Perguntamos a ele se é filho do dono da casa e  ele nega.

“Minha mãe  foi embora por causa da cheia. Eu fiquei com o Seu Manoel”. Perguntamos a ele o que o fez ficar  naquele lugar alagado. Ele responde que gosta muito dali, o lugar é calmo e pode pular no rio quando quiser “Mas pular no rio, com essa água suja?”, perguntamos. Ele responde que a água está suja agora porque o rio vai começar a baixar, mas quando não tem enchente,  é limpinho. Juscelino está sem estudar, disse que não achou vagas para se matricular na rede pública de ensino.

Despedimos da família e seguimos viagem. Descemos do barco e passamos pela área alagada do centro de Manaus, onde fizemos muitas fotos. Impossível não refletir sobre a tragédia da cheia na vida dessas pessoas, em moradias improvisadas. Retratos da Amazônia brasileira, tão rica e tão pobre…!

Clique aqui e veja galeria de fotos sobre a cheia em Manaus.

Confira um vídeo exclusivo sobre a cheia no Amazonas

 

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