Séculos e séculos, de desafio em desafio, por entre assombros das ciências naturais e registros dramáticos da história social e política, chegamos a uma síntese do continente verde: a Amazônia é uma Esfinge, uma constelação de enigmas simultaneamente amáveis e tormentosos.
O esforço de interpretação e domínio desse complexo fabuloso homem-selva rendeu cenários vibrantes da literatura, capítulos novos da biologia, apaixonadas representações da arte. O trabalho humano, seguindo à frente, agigantou-se nessa interminável aventura despertada pela Esfinge. Como desvendar a Amazônia, amando-a, defendendo-a, construindo-a como espaço próspero e feliz da civilização equatorial?
Diante do desafio ancestral, surgiram como surgem sempre, sonhos e planos, iniciativas que vão desde as formulações geopolíticas à investigação das sementes. E eis que nasce, da convergência de forças predestinadas, a instituição que logo se transforma em voz que revela, determinação que ilumina, cruzada que socorre e que redime o destno da Esfinge: a Rede Amazônica de Rádio e Televisão.
Então Phelippe e Milton armaram-se cavaleiros da modernidade e empunharam as flámulas das comunicações para a sua intransferível expedição libertária aos confins do deserto verde. E não se trata apenas da audácia empresarial, mas de saga pessoal de quem nasceu para ser intérprete da Amazônia. De não vocacionados para a inaudita luta, reuniram suas energias, fundiram suas almas e com a mente no trabalho e o coração na fé, não são mais dois homens, são um só, uma perseverante unidade criadora que arregalou os olhos da Esfinge; um exemplo de visão profunda, uma edificante contribuição ao caráter de um povo. Não se fala de um sem mencionar o outro e já antevejo que algum dia, nos manuais de comunicação e de sociologia, será ensinado como essencial ao êxito, o que chamo agora de Tríplice Princípio de Phelippe-Milton, que os estudiosos anunciarão a partir de três formulações: amar para compreender, comunicar para revelar, unir para libertar. Assim fizeram, assim fazem, promovendo cada vez mais os diálogos com estirões antes perdidos, atentos aos signos socioculturais preponderantes, promovendo a humanidade da selva.
Os significados da palavra rede podem muito bem mediar a transferência desses cavaleiros para o imaginável Ordem dos Empresários-Apóstolos, tal a dignidade, o compromisso e o alcance da instituição que fundaram. O apelo do Mestre aos pescadores do Genesaré sempre suscitará neste vocábulo a lembrança da palavra lançada à edificação do humano. É assim mesmo a Rede: palavra que agasalha e entusiasma e sinaliza e sinaliza na direção das conquistas luminosas. Pelo poder inerente à notícia e ao diálogo com as realidades, ela acolhe em seus fios a vida multifacetada da Região e dá-lhe uma voz potente e verdadeira que nao silencia as asperezas e insuficiências, nem oculta o sofrimento e a solidão, mas informa e ensina, desperta e convoca, conforta e denuncia. De fato, coragem de guerreiro e deteminação de apóstolo forma o tecido da Rede, e tudo são vitórias da palavra vestida de imagens; da palavra que peregrina de cidade em cidade, de beiradão em beiradão, para fazer subir, dos asfaltos aflitos e dos lagos sozinhos, toda a matéria que faz a vigília de torres e de antenas.
Estamos em festa: faz quarenta anos a Rede Amazônica, missão transcedente, prodígio da vontade humana inspirada por ideais proclamados e vividos por seus fundadores. Phelippe e Milton e sua multidão de legionários romperam para sempre o isolamento das latitudes remotas. Nossos rios já podem contar ao mar distante tudo o que sabem sobre a principal fronteira ecológica da Terra e a várzea se faz noiva do litoral. Um satélite dá voltas no universo da selva, anunciando: Rede implantada, Esfinge decifrada.
* Marx Carpentier é escritor. Membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico do Amazonas.
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