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09/05/2012 às 18:37 Juçara Menezes - jornalismo@portalamazonia.com

Cheia: entenda o fenômeno das águas que afeta 70 mil pessoas no Amazonas

Ainda há possibilidade de uma enchente ainda não registrada, como as de ciclo de 500 anos e de até mil anos, afirma superintendente da CPRM

Ribeirinhos enfrentam a cheia do rio Solimões, este ano. Foto: Eliena Monteiro/Portal Amazônia

Ribeirinhos enfrentam a cheia do rio Solimões, este ano. Foto: Eliena Monteiro/Portal Amazônia

MANAUS –  Um novo recorde pode estar próximo no Amazonas.  A cheia do rio Negro ameaça ultrapassar a de 2009, até então a maior já registrada no Estado.  O assunto é recorrente em casa, na imprensa, no dia a dia com a família e os amigos, no trabalho e até nas redes sociais. Todos os dias, há mais e mais informações sobre as enchentes nas calhas dos rios. Apesar do amazonense já falar em maior evento hidrológico, especialistas não confirmam (nem descartam) a possibilidade.

O único modo de saber a respeito de superação de volume das águas é fazendo comparações com o passado. Quando se fala em 1953, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) afirma tratar-se da enchente que ocorre a cada 100 anos. Sobre a grande cheia em 2009, a história é de um evento deste porte a cada 50 anos.

O portalamazonia.com questionou o superintendente da CPRM, Marcos Antônio de Oliveira, a respeito das enchentes deste ano. Inicialmente, ele reafirma a necessidade de espera: os picos das águas acontecem em junho ou julho, ou seja ainda faltam ao menos 30 dias para a certeza de um outro recorde. “Ainda há possibilidade de uma enchente ainda não registrada, como as de ciclo de 500 anos e de até mil anos. Estas não estão em nossos arquivos, pois os dados começam em 1902”, ponderou o superintendente.

Para 2012, a ordem é esperar e estudar melhor o fenômeno. E o CPRM está fazendo a sua parte. A instituição iniciou a procura de registros nos sedimentos dos lagos ao longo do rio Amazonas. Quando o período é de cheias, uma marca com algas é feita pela ação natural das águas. Já na seca, um depósito de sedimentos grosseiro define o tamanho da vazante. Os estudos são realizados no Largo do Janauacá, em Manacapuru.

Afinal, por que acontecem as cheias?

A subida dos níveis das águas nas calhas dos rios está a olhos nus em 18 municípios do Estado, incluindo a capital Manaus. As cheias do rio Negro, no entanto, são o resultado do aumento no rio Solimões, já nas proximidades do município de Tabatinga, ainda no Amazonas.

Centro sofre com a cheia também em 2009. Foto: Bruno Lopes/Portal Amazônia

Centro sofre com a cheia também em 2009. Foto: Bruno Lopes/Portal Amazônia

O excesso do volume pluviométrico (as chuvas) acontece bem antes de chegar ao Brasil, em plena Cordilheira dos Andes. A cadeia montanhosa tem cerca de oito mil km de extensão, é a maior do mundo em cumprimento e é responsável pelo abastecimento do rio Amazonas.

A enchente começa ainda na época quente. O sol aquece o Oceano pacífico que evapora e cria nuvens carregadas de umidade. Nuvens nimbus  param em altitudes elevadas na Cordilheira dos Andes, onde só pode acontecer duas coisas: nevar ou chover. É quando surgem as consequências do fenômeno chamado La Ninã. O aquecimento das águas do mar causa consequências como se vê agora: chuvas acima do normal.

Registro da cheia de 1953. Foto: Claudemir Andrade/Arquivo pessoal

Registro da cheia de 1953. Foto: Claudemir Andrade/Arquivo pessoal

É possível ter acontecido tudo isto em 1953, a primeira grande cheia registrada. Na época, o rio Negro chegou a 29,69 metros. Já em 2009, a régua marcou 29,77 metros.

Há três anos, o professor de hidrologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Naviano Filizola, atribui a subida anormal do rio Amazonas a uma coincidência rara de picos de cheias dos diferentes rios que a compõem. “É um fenômeno raro. Houve concentração muito forte de chuvas em janeiro no alto Rio Marañon, no Peru. “No Brasil, as chuvas se concentraram ao longo do Solimões e do Amazonas, e ao longo do Juruá e do Purus. Isso se juntou com a elevação de nível do Rio Negro, que está agora em época de chuvas fortes e coincidiu com o pico de cheia do Rio Madeira”, acrescentou.

Pesquisadores reunidos em Manaus para o Workshop Internacional sobre Hidrometria (o estudo do fluxo de variação das cotas dos rios), discutem o curto espaço de tempo entre cheias e secas e buscam diretrizes para a criação de instrumentos capazes de auxiliar na previsão dos fenômenos naturais com maior exatidão. O evento acontece até esta sexta-feira (11), no Hotel Tropical.

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