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25/07/2012 às 11:43 Hêmilly Lira - jornalismo@portalamazonia.com

No Dia do Escritor, poeta Thiago de Mello fala ao Portal Amazônia

Em homenagem ao Dia do Escritor, o Portal Amazônia entrevistou o autor de mais de 30 livros publicados

Thiago de Mello. Foto: Divulgação

Thiago de Mello. Foto: Divulgação

MANAUS – Reverenciado nacionalmente e  internacionalmente, o poeta amazonense Amadeu Thiago de Mello, é  entrevistado pelo portalamazonia.com, em homenagem ao Dia do Escritor, comemorado neste dia 25 de julho. De personalidade marcante, o poeta não para, está na ativa com a criação de mais uma obra que deve ser lançada em breve e, tendo como palco de inspiração, o local onde mais gosta de estar: “minha casa na floresta”.

Thiago de Melo disse certa vez que não sofre da enfermidade chamada falsa modéstia, justificável pela importância de sua obra: “continuo a ser coerente com a minha vocação, sou responsável perante o dom que recebi ao nascer, o dom da poesia. Minha vida é uma vida que tem sido útil para os outros. Sou coerente, porque coloquei sempre a minha poesia a serviço da vida”.

Natural de Barreirinha (a 331 quilômetros de Manaus), Thiago de Mello possui 86 anos de idade e muita história para contar, como as influências literárias, os anos de exílio na época da Ditadura e as experiências vividas na Amazônia. Conforme o autor, a inspiração para a literatura surgiu do reforço de uma professora. “Quando eu tinha 9 anos, a professora chamada Dona Aurélia lecionava literatura no colégio. As aulas se estenderam para o quintal da casa dela. Durante três meses lemos Um Apólogo, de Machado de Assis. Dona Aurélia nos ensinou a pensar e a entender a literatura”, contou.

Em 1978, em consequência da Ditadura que se abateu sobre o Brasil, o poeta exilou-se no Chile, onde teve um encontro com o poeta chileno Pablo Neruda. Os dois tornaram-se amigos e um traduziu a obra do outro. “Quando voltei do exílio, lancei um livro pela Fundação Roberto Marinho chamado ‘Bento Geral’, uma compilação de oito obras.  Na noite de autógrafos, quando terminei de dar entrevistas, uma mulher me chamou a atenção ao perguntar-me o livro que eu estava lendo. Ao olhar, vi uma senhora de cabelos grisalhos. Era Dona Aurélia, a minha professora. A partir daí sempre que nos falávamos ela me cumprimentava com a mesma pergunta”, lembra Thiago de Melo.

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Thiago alerta para a importância da literatura ser compreendida. “Escrevo para o leitor comum, não somente para àqueles que entendem a arte. No entanto, não me esqueço da escrita como uma forma de arte compromissada com a estética e com a beleza”, frisou.

Para o poeta, o leitor é o “prolongador” do livro, é quem vivencia cada palavra lida e interpretada. Aos escritores ou aspirantes, Thiago deixa um conselho: “Respeite e, se possível, ame a sua matéria-prima, a Língua Portuguesa”.

Thiago de Mello eternizado na tela do artista FCLopes. Foto: Divulgação

Thiago de Mello eternizado na tela do artista FCLopes. Foto: Divulgação

A carreira

O autor possui cerca de 30 livros publicados, e obras traduzidas para mais de 30 idiomas. Em seu poema mais conhecido, ‘Os Estatutos do Homem’, o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples do ser humano.

O escritor, hoje presidente do Conselho Municipal de Cultura em Manaus, sempre esteve engajado na luta pelos direitos humanos. Seu livro ‘Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida’ rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e o tornou conhecido internacionalmente.

Em 1951, com o livro ‘Silêncio Falado’, Thiago descreve a citação feita por Álvaro Lins, um dos maiores críticos literários da época. “Em seu discurso, num determinado evento, ele citou meu nome como um dos principais poetas brasileiros. Disse a ele que isso quase me matou. Após o elogio eu não precisaria conquistar mais nada”, ressaltou.

 O animal da floresta

(Thiago de Melo)

De madeira lilás (ninguém me crê)
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.

*Colaboraram Eliena Monteiro e Gláucia Chair

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