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01 de agosto de 2012 - atualizado as 07:25

Tempo de Pedir

Flávio Lauria

Esta semana, parado no sinal á frente do Fórum Henock Reis, entre vendedores de jornais e outros vendedores pedintes, um menino de rua, pediu para que eu abaixasse o vidro do carro, no que fiz com algum receio, e travamos o seguinte diálogo estarrecedor:  – Tio, descola um dinheiro para mim. São 9hs, estou com fome! – Com fome, cara? Por que não tomou o café da manhã? – Porque eu sou um bolo de miséria!

A frase ficou marcada e evidente que dei alguns trocados para ele, afinal, pedir é melhor do que roubar, além dos que pedem apontando um revólver, ou uma faca, para impor o seu pedido O hábito de pedir virou uso, costume, mania. O dito “quem não chora não mama” já foi letra de tango na Argentina e de samba no Brasil. À exceção da classe privilegiada, a que manda e que troca seus favores, todas as outras pedem. Este é, biblicamente, o tempo de pedir. Pede voto quem não tem voto, pede trabalho quem não tem emprego e pede aumento quem já tem trabalho. Somos, no caso do Brasil, um país de mendigos e, no caso específico de Manaus, uma cidade de pedintes. Se esmoler é quem dá esmola, esmoleiro é quem pede. Já se foi o tempo em que pedir era prerrogativa dos miseráveis.

Todos precisam viver. Os sem-terra pedem terra, os sem-teto pedem teto, os sem-pão pedem pão, os sem-água pedem água e os sem-nada pedem tudo. “Tio, uma moedinha!” E todos os meninos de Manaus – por um real, 50 ou dez centavos – são nossos sobrinhos. Na falta de uma cédula, serve qualquer coisa que esteja ao alcance dos olhos, mesmo o que não serve. Há os que pedem para comprar, espécies de vendedores ambulantes – ciganos ou subcamelôs – que tudo oferecem. A frase de Josué de Castro – “metade da humanidade não come e a outra metade não dorme com medo dos que não comem” – ficou atualíssima.

O medo colocou vidros verdes, películas escuras, travas-elétricas e alarmes em todos os automóveis. O medo colocou correntes, grades, cadeados, porteiros-eletrônicos em todos os prédios. O medo inventou bancos, carros blindados, cofres-fortes em todos os lugares. O medo fechou as casas, fechou os quartos, fechou as gavetas. O medo se fechou e nos fechou dentro do medo. Um pedinte pode ser um ladrão e vice-versa. Os que já perderam o sono não querem perder a vida, assombrados com tais assombrações. Mas todos continuam pedindo: os cobradores pedem o troco, os guardas-de-trânsito pedem o toco, os flanelinhas pedem o aluguel das ruas, os garçons pedem as gorjetas.

Se pede com o chapéu, com a cabeça, com os olhos, com as mãos. Uns pedem com a roupa em frangalhos, outros com uma mochila que nunca se enche. Muitos pedem com o corpo: mostrando um aleijão, uma ferida – a cegueira exibida pelo guia. Há sempre um modo feio de pedir. Alguns pedem com a menor idade e outros com a maior.

Há o gestual pedinte, a gestação pedinte, a geração pedinte. Há até os que pedem por pedir. Como a praxe é pedir, peço também: eu peço a Deus a idéia, o pensamento. Peço à Musa a palavra, o verso, a frase. Peço ao Portal Amazônia que me publique a crônica e ao leitor, que me leia, por favor!

 

Sobre o autor
Flávio Lauria
Professor Universitário com Pós Graduação em Administração Pública e Mestrado em Administração Geral.Consultor de Empresas formado pela UNICAMP/SP;Ocupou vários cargos em empresas Públicas e Privadas dentre eles:Gerente de Recursos Humanos da Tubozin da Amazônia S/A;Diretor Administrativo Financeiro do IEBEM;Subsecretário e Secretário Municipal de Administração;Mais de 850 artigos escritos, versando sobre temas como Educação, Política, Atualidades.É membro da Academia Amazonense de Escritores. Escreve ás quintas-feiras no jornal Em Tempo, no blog do Carlos Branco e no Portal Amazônia.
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