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15 de fevereiro de 2012 - atualizado as 06:25

Período devasso do Carnaval

Flávio Lauria

Os do meu tempo lembram bem das festas do Ideal Clube, do Nacional, do Bancrévea, do Rio Negro e de seu sereno, e do Cheik Clube, na época de carnaval. Os adeptos da folia quando não estavam nos clubes, participavam da singeleza dos carnavais de rua de outrora. Mulheres e homens munidos de lança-perfumes (hoje proibidos) e serpentinas faziam a festa com a ingenuidade dos grandes cordões de carnavalescos pelas ruas e avenidas, por entre os grupos em cima de viaturas de variadas cores. Pelo menos uma vez por ano, costuma o nosso povo dar-se ao mais completo desligamento de sua luta diária pela vida.

Não há argumento, que se saiba, a opor-se à continuidade dessa quase meia semana de folia, a qual oferece enorme oportunidade de abertura para o desoprimir dos recalques, repelir os dissabores e afugentar as revoltas. Toda a indignação e insatisfações do dia-a-dia, no decorrer, dessa explosão de alegria, condiciona-se a uma reconciliação dos sentidos, graças à harmonia que a exteriorização dos sentimentos proporciona aos carnavalescos em seus vaivéns relaxados.

Pernas e bundas à mostra, fantasias coloridas, caras pintadas, não é de admirar então que a farra não deixe de tomar conta de todo mundo. Esbaldam-se cheios de animação nos desfiles de blocos de modo a contagiar a todos os presentes. No sentido coletivo, a preocupação desses conjuntos de roupagem uniforme consiste em vencer as competições, organizadas formalmente, com ofertas de compensações aos participantes que se destacarem.

São representados nessas apresentações muitos bairros da cidade. É pena que não se voltem mais os bailes e os concursos de fantasia antigos, lamentamos ter desaparecido tão bonito costume, com as famílias saindo às ruas com a finalidade de brincar. Não era como hoje, festa de rua, que procura estimular a libido de turistas pelas exibições insistentes de dança da garrafa e do aí se eu te pego, nas mais variadas demonstrações de sensualismo decadente. O carnaval que hoje faz a gente imaginar que nosso País, além dos altos índices de corrupção, é também o país da libidinagem, para não dizer país por certos períodos do ano endemicamente devasso.

Não se pode negar que nesses dias destinados ao império do rei momo, realmente há uma confusão entre a liberdade de comportamento, com a mais inescrupulosa licenciosidade nos costumes, nas expressões e nas manifestações lúdicas. A prática apelativa e escancarada do fluir dos instintos desregrados toma, agora, o lugar da espontaneidade admirável que caracterizava a manifestação festiva dos grupos humanos de 60, por exemplo.

Por volta dessa época, sem dúvida se externavam padrões de dignidade carnavalesca muito menos ostensivos, muito menos vergonhosos e sem o nível de baixaria como hoje se veem. Mas não obstante seja a folia bem recebida, estamos com Nélson Rodrigues. Só que apenas a nudez não, mas toda sem-vergonhice seria castigada. Bom carnaval.

Sobre o autor
Flávio Lauria
Professor Universitário com Pós Graduação em Administração Pública e Mestrado em Administração Geral.Consultor de Empresas formado pela UNICAMP/SP;Ocupou vários cargos em empresas Públicas e Privadas dentre eles:Gerente de Recursos Humanos da Tubozin da Amazônia S/A;Diretor Administrativo Financeiro do IEBEM;Subsecretário e Secretário Municipal de Administração;Mais de 850 artigos escritos, versando sobre temas como Educação, Política, Atualidades.É membro da Academia Amazonense de Escritores. Escreve ás quintas-feiras no jornal Em Tempo, no blog do Carlos Branco e no Portal Amazônia.
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