Eis um livro pequeno, curto, objetivo, necessário. Não substitui as biografias do Professor Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, muitas delas excepcionais.
Também não um livro de memórias. Como muito bem o titulo indica, trata-se apenas de lembranças de um período da vida de Joseph Ratzinger: os primeiros 50 anos (1927-1977), até ser nomeado Arcebispo de Munique.
Relatadas com simplicidade e com a precisão de um professor, acompanhamos a trajetória do jovem bávaro desde a infância. Os primeiros estudos, as mudanças de domicilio por conta da profissão do pai, comissário de polícia e bom católico, opositor decidido à ameaça Nazista num terceiro Reich em ascensão.
Seguem-se os anos do seminário, interrompidos pela guerra: a convocação forçada ainda adolescente para as tropas germânicas, e a recusa ao alistamento nas SS por manifestar o desejo de tornar-se sacerdote católico. À ordenação sacerdotal em 1951 segue-se uma curta atividade pastoral, pois desde os primeiros momentos Ratzinger mostrou seu dom para a investigação teológica e para a docência.
Em 1953, completado o Doutorado, inicia a livre docência em Frisinga, e a trajetória docente em importantes universidades alemãs: Bonn, Munster, Tubinga, Ratisbona, assim como a sua participação no Concílio Vaticano II, como consultor do Cardeal Frings de Colonia. Tinha Ratzinger nessa época 37 anos e se apresentava como um teólogo inovador e quase revolucionário.
O jovem professor tinha já muito estudado a Santo Agostinho, e certamente é hoje o maior conhecedor do seu pensamento. Estudado e incorporado: nas páginas finais, ao relatar sua nomeação como Arcebispo de Munique, hesita pensando que sua vocação não é pastoral, mas docente.
Lembra-se então, que o Bispo de Hipona também queria dedicar-se à investigação teológica, mas a vida lhe empurrava para o serviço como pastor. Esta imagem –fazer de Santo Agostinho um alter ego- a encontramos também nas recentes encíclicas de Bento XVI: gostariam –ambos- de dedicar-se à docência, e escrever livros de teologia, sem envolver-se diretamente nas tarefas pastorais.
A vida é um paradoxo, e Deus não desaproveita os talentos: não devem ser muitos os que possam se igualar em produção cientifica e literária com Agostinho de Hipona e com o Professor Ratzinger.