O Portal na mídias sociais
» Escolha o Blogueiro
Portal Amazônia » Blogs » Odenildo Sena » Post
10 de julho de 2012 - atualizado as 08:00

O primeiro fusca

Odenildo Sena

O primeiro fusca a gente nunca esquece. Isso mesmo. Ficam na memória os mínimos detalhes desse estranho sonho de consumo que as relações sociais acabam introjetando em nosso fraco espírito. Lembro-me até hoje da placa: AM-0509. As poltronas eram na cor cinza, mesma dos forros das portas. No painel preto, a rodelinha com aro metálico no interior da qual se via o ponteirinho que marcava a velocidade e, na parte de baixo, o marcador de quilometragem. Ao lado esquerdo, um pequeno visor quadrado que alertava para a quantidade de combustível. De cor branca e saído da fábrica em 1970, comprei-o, por um preço camarada, de um cunhado que realizara seu sonho, havia quatro anos, no sorteio da trigésima prestação de um longo consórcio que duraria cinco anos. De olho no cumprimento dessa meta, eu já vinha acumulando alguns trocados para a entrada, frutos do primeiro emprego com carteira assinada no extinto Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, na Sete de Setembro, proximidades da Praça da Polícia. Foi minha primeira dívida oficial e meu primeiro carnê, coisa, também, que a gente nunca esquece, sobretudo pelo quase infindável número de folhinhas a serem destacadas e carimbadas todos os meses. Diferentemente da música do Adoniran Barbosa (“cada tábua que caía doía no coração”), naquele caso, cada folhinha aliviada mensalmente do grosso volume no dia do pagamento era uma alegria danada pro coração.

Retiro do fundo da memória outras lembranças do meu primeiro Fusca. Como tantos outros de sua espécie, tinha feições que, dependendo da perspectiva e do estado de espírito de quem o olhasse com alguma atenção, podiam expressar sentimentos de melancolia, tristeza ou da mais pura alegria. Essa fantasia era reforçada pelos faróis arredondados e por uma saliência na parte superior que lembravam os olhos e os cílios de um humano. Tais características, particularmente, transformavam o fusca numa espécie de ente querido e membro da família. Os para-choques dianteiro e traseiro eram niquelados e bem diferentes dos que vemos hoje. Além do estilo charmoso, com traços de uma obra artisticamente desenhada, tinham suficiente resistência para suportar impactos decorrentes de eventuais barbeiragens provocadas, na minha perspectiva de neomotorista, pela pouca habilidade dos outros. A propósito, naquele tempo, inexistiam as autoescolas. O normal era primeiro adquirir o veículo e, só a partir daí, nele próprio e com a ajuda de um conhecido, aprender a dirigir e cumprir os demorados rituais para a obtenção da carteira de motorista, o que significa dizer que, por um bom tempo, a atenção era redobrada para não ser flagrado nas frequentes fiscalizações. Depois de habilitado, o grande sonho era cair numa blitz para mostrar a carteira ao guarda, coisa que, por ironia do destino, passava a ser rara. Oito meses depois, aconteceu de eu cair em uma. Apontei o fusquinha orgulhosamente na fila, seguindo orientação do seu guarda, saquei o documento devidamente plastificado, coração batendo forte, aguardei ansioso. Pra minha retumbante frustração, justo ao chegar minha vez, a barreira foi desfeita, a batida encerrada, seu guarda me olhou com desdém e eu não fiz a estreia de minha carteira.

Nunca tive problemas com aquele fusca. Aprendi a compreendê-lo e até a superar seus pequenos problemas de saúde. Para isso, a mágica era manter uma simples chave de fenda no porta-luvas. Resolvia de tudo. Retirava e lixava o platinado, desentupia o carburador, regulava a velocidade do motor, trocava o cabo do velocímetro e do acelerador, enfim, dava a ele uma assistência de irmão. Tanto que, depois do AM-0509, convivi com tantos outros fuscas, mas nunca me esqueci do primeiro.

Sobre o autor
Odenildo Sena
Formado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), onde é professor do Departamento de Língua e Literatura Portuguesa. Em 1982, especializou-se em Psicologia do ensino-aprendizagem pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em convênio com a Ufam. Em 1985, obteve o título de Mestre em Lingüística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com a dissertação A semântica do poder, onde analisa a influência de um dado universo léxico próprio do período ditatorial. Em 1997, defendeu na mesma universidade a sua tese de doutoramento De Fernando a Fernando: as teias ideológicas do poder, onde analisa o discurso dos dois primeiros presidentes civis eleitos após o regime militar. É autor dos livros Palavra, poder e ensino da língua, publicado em segunda edição pela Editora Valer em 2001 e A engenharia do texto, publicado pela Editora da Universidade Federal do Amazonas (Edua) em 2004. Atualmente é Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia do Amazonas.
» Veja Também
15/05/2013
» Deixe seu comentário
Nome:
E-mail:
Li e aceito os termos.

*


» Busca
» Mais Comentados
14/04/11
Amor por acaso
28/06/11
As vantagens de estudar medicina na Bolívia
» Newsletter
Receba notícias da Amazônia gratuitamente no seu e-mail.
Cadastre-se.

Uma empresa da Rede Amazônica. 2001- 2013 portalamazonia.com. © Todos os direitos reservados. Rede Amazônica