No julgamento do mensalão pelo STF, resolvi tirar o som da televisão e verificar a postura dos advogados de defesa e dos ministros. Centrei-me nas mãos de cada um deles como símbolo criado para o contraste poético na história dos homens. Dessa vez as mãos assumem um protagonismo especial. Mãos trêmulas de alguns advogados e ministros, mãos que pareciam querer esmurrar seus adversários, mãos que tocavam e retocavam papéis e microfone a todo instante.
Encontrei em cada uma das mãos, algo original no tipo, no formato e nos fins que tinham em vista: vi mãos carregadas de um lirismo ingênuo, mãos que gesticulavam, criavam e falavam, vi mãos verdadeiras, acolhedoras e reflexivas. Mas vi também mãos cruéis, dominadoras, fazendo o contraponto com as mãos calejadas pelo trabalho e demasiado sujas com as dores ou desgraças do mundo. Todas as mãos deveriam ser profundamente assépticas. Exatamente como as mãos de um cirurgião no instante em que apanha o bisturi para salvar uma vida. Pela defesa ferrenha dos advogados, cheguei até pensar que na turma do mensalão só tinham mãos limpas. As mãos assumiram um significado importante na história.
Elas servem, por exemplo, para barrar os escândalos, a corrupção ou o nepotismo. Como imaginar um governo com mãos autoritárias, ou inversamente, com mãos frouxas. A lassidão permite sentir a vertiginosa sensação de queda e de vazio no poder que acabará por converter a sociedade numa Babel. Falo aqui da Babel complexa que se faz perceber no levantar coletivo de uma multiplicidade de mãos numa espécie de coreografia de massa. É como se observássemos um espetáculo de balé de sombras. Nessa representação real, as mãos são de todas as cores, idades e formatos.
Agora fechadas – numa situação de protesto – elas exigem direitos constitucionalmente assegurados e reclamam a segurança pelo menos no uso do transporte coletivo sem serem violentadas. Esperam justiça no ressarcimento das suas perdas e a não humilhação que se evidencia numa simples frase: resistir é perigoso e denunciar é inútil. Novamente as mãos. Mãos agora sitiadas. Mãos que recusam as leis ditadas pelos homens porque eles não representam os verdadeiros interesses e necessidades daqueles que os elegeram.
Revemos as mãos do Estado: frouxas, flácidas, hesitantes. Mãos que não sabem encontrar alternativas para os conflitos existentes na sociedade, mãos que levantam o dedo polegar direito – exatamente como nas grandes arenas romanas – para a defesa do direito de propriedade e, ambivalentemente, alçam o mesmo polegar, desta vez esquerdo, para a retórica do direito à moradia daqueles privados de teto. Mãos que, imitando Pilatos, são lavadas perante o público no firme desejo de isenção de responsabilidade pelos atos espúrios ou ilegais dos seus súditos. Mãos do Estado, manietadas ou subjugadas pelos acordos nos bastidores, pela ideologia capitalista e pelas teias dos poderosos, sempre invisíveis ou ocultos. Sempre as mãos.