Não tenho bem certeza. Aqui no meu disco rígido aparece como sendo coisa de Nelson Rodrigues. Refiro-me àquela opinião de que o pênalti, no futebol de campo, é tão importante e decisivo, que deveria ser cobrado pelo presidente do clube. Estive pensando coisa parecida em relação às manchetes de jornais. Tanto a escolha da matéria quanto a formulação do texto a compor o destaque são tão importantes, que deveria ser papel assumido pelo dono da empresa. Brincadeiras à parte e afora casos de manipulação explícita ou sensacionalismo para aumentar as vendas, eu sempre tive dificuldades de entender as razões de um mancheteiro para a escolha de um tema ou outro que mereça ganhar destaque na capa de um jornal.
Nesses últimos dias, por conta da velocidade com que as notícias circulam nas redes sociais, andei colecionando fatos que jurava estariam no dia seguinte estampados com letras garrafais na primeira página dos jornais. Pela manhã me deparava com o prognóstico derrotado. Algumas notícias até eram exploradas nos cadernos internos, mas não no espaço privilegiado da primeira página.
Querem um exemplo? Depois de 37 (trinta e sete!) anos de pesquisa, o Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, desenvolveu e patenteou uma vacina contra esquistossomose. O feito é inédito no mundo! Apostei minhas fichas. Essa não passará despercebida dos nossos sempre atentos mancheteiros. Dia seguinte, vasculhei em três jornais. Nada. Nem dentro, nem fora. Ou melhor, nem na primeira página nem nos cadernos internos. Embasbaquei-me. Será irrelevante a descoberta de uma vacina para uma doença que afeta em torno de 200 milhões de pessoas no mundo, causando-lhes febre, diarreia, anemia e morte, principalmente na América Latina e África? Será desprezível saber quanto de recursos públicos e capital intelectual foi investido nessa empreitada? E as pacientes horas em laboratórios e estudos clínicos?
Querem outro exemplo? O laboratório francês Sanofi anunciou a descoberta de uma vacina que imuniza três das quatro cepas da dengue. Quem já foi picado pelo reimoso mosquitinho sabe do sofrimento. Com alguma leitura se sabe haver cerca de 50 a 100 milhões de novos casos a cada ano e cerca de 20 mil óbitos. Não é difícil imaginar a felicidade que a vacina trará para milhões de brasileiros, sobretudo os mais pobres; o que representará de economia em recursos públicos destinados ao tratamento da doença; o quanto se poderá redirecionar de pessoal e infraestrutura para outras emergências. Afinal, é ou não de altíssimo interesse público o acontecimento? Pasmem! A notícia saiu na primeira página de um dos jornais. Mas tão pequena e naquele cantinho inferior aonde só se chega com muito boa vontade.
Como falei, tenho diversos casos colecionados, mas esses dois últimos são quentinhos e talvez expliquem um pouco essas escolhas que fogem à minha rude compreensão. Os resultados do Ideb demonstraram que o Amazonas superou algumas médias nacionais. Ainda que não suficiente para uma revolução, há motivo, sim, para se comemorar. Lembrando-me do destaque negativo de há dois anos, garanti a mim mesmo que, dessa vez, os mancheteiros fortaleceriam nossa abalada autoestima. Qual nada! Mas, no dia seguinte, os jornais estamparam no espaço mais privilegiado de suas primeiras páginas que a cidade de Manaus perfila-se entre as piores do país em saneamento básico. Merecida manchete, mas tão relevante quanto o fato anterior.
Fico com a sensação de que, a nos contentarmos com as primeiras páginas dos jornais, estaremos vivendo em um mundo sempre trágico e irrespirável.
Querido Professor Odenildo, é um prazer ler seus comentários. Compartilharei em todas as minhas redes sociais e com jornalistas amigos. Conte comigo! Abração!!