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19 de junho de 2012 - atualizado as 08:29

Livro aborda democracia na modernidade

Pablo González Blasco

Javier Gomá: “Ejemplaridad Pública”. Taurus. Madrid (2009) 274 pgs.

Esperava muito deste livro, talvez demais. O título resultou-me sugestivo e imaginei que encontraria argumentos para alimentar a minha esperança na res publica, nos tempos de mediocridade política que vivemos. Não que a corrupção pública seja novidade, mas o acomodamento, a ausência de crítica, gera um genuíno processo de anestesia de valores que afoga perspectivas de melhora. A podridão existe, mas não nos incomoda. Ao menos, não molesta o suficiente para tomar providencias. Sinceramente, não encontrei nas quase 300 páginas deste livro nada que ajudasse a empreender esta batalha da exemplaridade.

Cabe perguntar-se, e com razão, o porquê deste comentário, em português, de um livro escrito em espanhol, que não me consta tenha sido traduzido, e que me decepcionou. O motivo é simples: escrevo para ordenar as ideias, as reflexões que surgiram enquanto lia este livro. A contribuição do livro em si é mínima: de fato não fiz nenhuma anotação textual, não tirei nenhuma ficha para utilizar em citações posteriores. Mas a provocação que o livro me brindou, bem vale a reflexão que aqui anoto.

No primeiro capítulo, Democracia, o autor descreve o percurso da modernidade, com a renuncia a todas as ideologias tradicionais – aristocracia, religião, valores, metafísica – para desembocar na igualdade democrática, aquela que nos faz –em palavras de Tocqueville- “independentes e débeis”. E cita textualmente o francês: “O homem que vive nos países democráticos sente orgulho, ao comparar-se com todos os que o rodeiam, vendo que é igual a eles; mas examinando o conjunto dos seus semelhantes sua insignificância e debilidade lhe entristecem”. Mais adiante: “São homens semelhantes e iguais, que giram sem descansos sobre si mesmos, procurando pequenos e vulgares prazeres para encher sua alma”.

O autor entende que a modernidade, que eliminou a autoridade, a imposição, de critérios teológicos e aristocráticos, se constitui pela democracia numa vulgaridade que a todos equipara. Essa vulgaridade pede respeito, e necessita novos modelos para melhorar; mas não os modelos de antes –heróis, santos, aristocratas- mas modelos que sejam acessíveis a todos. Uma Paideia para o povo, uma cultura para educar a vulgaridade, sem elitismos. Esse é o objetivo que anuncia para os outros dois capítulos e que foi o que me animou a continuar a leitura.

No segundo capitulo, Virtude, também não decola. Recorre a infinidade de autores –tantos que a erudição se transforma em leitura maçante, as arvores não deixam ver o bosque, e desconfio que nem bosque existe no meio dessa profusão de citações- para invocar a necessidade de uma virtude que conquiste a vulgaridade e a conduza à emancipação moral. “Os antigos deuses morrem ou envelhecem e ainda não nasceram outros novos”, afirma citando a Durkheim. Esse é o grande problema do livro: quer propor uma novidade –um exemplo de virtude- que não despreze a vulgaridade, que a conduza a melhorar suavemente, que seja uma vulgaridade reformada. Qualquer tentativa de distinguir-se da vulgaridade –daquilo que é accessível a todos- lhe dá verdadeira alergia, e volta recorrentemente sobre o tema. Tem uma quase doentia obsessão pela igualdade.

Esta obsessão chega a ser iconoclasta quando no terceiro capítulo, Exemplaridade, dedica várias páginas a criticar a exemplaridade que Ortega y Gasset propõe na sua obra, condenando-a por ser aristocrática e idealista. O homem superior que Ortega sugere em, por exemplo, a Rebelião das Massas, afirma ser um modelo aristocrático que não é accessível à vulgaridade democrática. Confesso que nesse momento estive tentado de fechar o livro, e poupar-me de escrever estas linhas. Mas contive-me; afinal, tenho o direito –democrático – de resposta. Ou não entendi nada do muito que li de Ortega, ou o autor não chega a ver que os modelos que o filósofo espanhol propõe são um verdadeiro convite à reforma pessoal: o homem superior, aquele que se exige mais do que os outros, não é um predicado decorrente do berço onde nasceu, mas o resultado da sua transformação, do seu treino incessante por melhorar, da sua askesis, e isso sim é textual em Ortega, citação da minha própria colheita.

Ao longo do livro, o autor tem espasmos saudosistas, e mostra que lhe falta terreno onde edificar. Reconhece que uma tolerância –ausência de qualquer imposição coercitiva- que não esteja temperada pela virtude e pelos bons costumes conduz à barbárie. Volta novamente a Tocqueville em “A Democracia na América”, para citá-lo textualmente: “Ao tempo que a lei permite ao povo americano fazer tudo, a religião lhe impede conceber tudo e lhe proíbe atrever-se a tudo”. Postula a bom exemplo, como recurso formador em homens públicos e pais de família: “O mau exemplo me absolve, o bom me condena”. E afirma a necessidade que todo homem – elemento democrático dessa venerada vulgaridade e homem público pelo simples fato de ser cidadão- tem de dar exemplo, como um tributo que deve à coletividade. Mas estas afirmações não são sustentáveis em absoluto, não convencem a ninguém. Afinal, se não há nenhum referencial objetivo –a modernidade acabou com todos- em virtude do que vou ter que complicar a minha vida para dar exemplo? Talvez um dever cívico para com a Polis, e não com o vizinho. Mas faltando o objetivo resulta por demais difícil estabelecer de que virtudes ou costumes morais –mores, costumes, usos- estamos falando. E além do mais, o exemplo tem de ser tal que não me faça superior ou diferente, mas que simplesmente convide à vulgaridade a uma melhora, sem sentir-se ofendida pelo meu exemplo. Francamente, não encontro nenhum motivo para deixar de cuidar da minha própria vida. A Polis não me seduz em absoluto.

Quero pensar na boa vontade do autor, ao tempo que me surpreende a ingenuidade dos seus postulados. Entendo que busque recursos acessíveis, modernos, para que o homem comum queira tornar-se melhor. Mas quem se esforça por ser melhor –sendo deste modo exemplo- acaba por distinguir-se dos outros; alias, são os outros os que o consideram diferente. Aí estão os heróis, os lideres, os santos; tanto os reais, como os protagonistas da literatura clássica, sobre a qual também o autor lança suas farpas.. Até ai chega a repulsa por tudo o que se distinga de vulgaridade. Não sei se os jogadores de futebol, alguns atores de cinema, ou os participantes do Big Brother seriam para ele elementos de vulgaridade não suspeita; se assim for, ainda estamos esperando a exemplaridade que nos devem como cidadãos.

Esta excursão filosófica, árdua e divertida, trouxe à minha memória Descartes que, no início da modernidade, também quis propor um novo sistema para garantir o conhecimento –e com ele a atuação- após eliminar tudo o que lhe precedeu. O que para Gomá é a vulgaridade, para o filósofo francês eram as ideias claras e distintas. Sabemos que Descartes, após a demolição matemática do saber, encontrou-se sem teto, despido, à espera de construir uma nova casa que, bem sabia ele, demoraria. E foi viver de aluguel, refugiando-se no que sempre havia acreditado, até que a casa própria fosse edificada.

Não creio que o jovem autor chegue perto de Descartes, nem muito menos. Até porque se de algo carece é de claridade na escrita. Os parágrafos são longos, confusos, e as ideias se perdem no meio de citações. Falta o fio condutor. A nota biográfica adverte da sua formação, dos cargos que ocupa, e até de algum premio conquistado. Mas reparo que não é professor, ou pelo menos nada disso se comenta. Faz tempo me fizeram notar a tremenda diferença que existe nos escritos daqueles que dão aulas sobre o tema, e os que escrevem sem nunca ter submetido suas ideias ao crivo da docência, da dúvida do aluno, da vivência enriquecedora de uma sala de aula. Os professores são claros, sua escrita é viva, depurada pela atividade docente. Vai aqui a minha modesta recomendação ao autor: leve todas essas teorias à sala de aula, depure sua escrita. Quem sabe podemos chegar a nos entender e buscar juntos as raízes e as motivações para uma exemplaridade pública que nos é tão necessária.

Sobre o autor
Pablo González Blasco
Médico (FMUSP, 1981) e Doutor em Medicina (FMUSP, 2002). Membro Fundador (São Paulo, 1992) e Diretor Científico da SOBRAMFA- Sociedade Brasileira de Medicina de Família, e Membro Internacional da Society of Teachers of Family Medicine (STFM). É autor dos livros “O Médico de Família, hoje” (SOBRAMFA, 1997), “Medicina de Família & Cinema” (Casa do Psicólogo, 2002) e “Educação da Afetividade através do Cinema” (IEF-Instituto de Ensino e Fomento/SOBRAMFA, São Paulo, 2006). Co-autor dos livros “Princípios de Medicina de Família” (SOBRAMFA, São Paulo, 2003) e Cinemeducation: a Comprehensive Guide to using film in medical education. (Radcliffe Publishing, Oxford, UK. 2005.) É também autor de diversas publicações e trabalhos apresentados em congressos nacionais e internacionais onde aborda temas de Medicina de Família, Educação Médica, Humanismo e Medicina, e Educação da Afetividade através do Cinema e das Artes. Seus escritos são o reflexo da experiência como Professor de Medicina de Família e estudioso da Educação Médica, assim como da interação com o meio acadêmico nas conferências e aulas em que freqüentemente é solicitado. Mesmo dedicando a maior parte da sua atividade profissional à formação dos futuros médicos, colabora também com projetos de educação corporativa em empresas, em instituições educativas e nos diversos meios de comunicação.
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