Não há mais sono em Manaus. As noites e os dias são longos. Em cada bairro, cada rua, cada casa, a respiração calma do sono foi cortada, como se noite de estio pesada e sufocante incendiasse a atmosfera e confundisse os sentidos. As pessoas, aqui e ali, que outrora navegavam suavemente no barco escuro do sono, ouvem agora o caminhar dos relógios e sentem dentro de si o verme da inquietação e os corações machucados.
Uma cidade inteira se consome na febre, noite e dia, em perene vigília através dos sentidos excitados de centenas de milhares.O universo é diminuto para as projeções das estatísticas do roubo e da tragédia que vêm aumentando consideravelmente.
Não vale a generalização, cabe mais a reflexão, o pensar de público sobre o que se passa na intimidade de uma família quando, abruptamente, se vê diminuída dos seus pertences materiais conquistados à força do trabalho, do suor, das energias despendidas e do esforço que a inteligência exercita.
Pior – infinitamente pior – irreversivelmente triste, quando, além dos anéis se vão dedos inocentes acompanhando os corpos cujas vidas a brutalidade humana ceifa na simplicidade e frieza de assassinos impunes, mesmo que filhos de uma sociedade injusta. Hoje não há mais lugares seguros, sendo qualquer lugar, palco de inúmeros assaltos e cenário vergonhoso de furtos e crimes que se sucedem à luz do dia e da noite, sem vexame e sem medo. O que não se compreende é a repetição sequenciada dos mesmos atos maléficos à sociedade, apesar do esforço das autoridades competentes. O problema não é apenas um caso de polícia, de leis que penalizem os infratores, de vigilância indormida. Há aspectos sociais de tal ordem que, se o Brasil não reverter a sua política econômica, o seu quadro social, serão gerados o caos e o temor em nosso cotidiano.
Daqui deste espaço, já fiz elogios ao coronel Vital como Secretário de Segurança, ao Programa Ronda nos Bairros do governador Omar, mas é preciso mais do que competência e boa vontade. É preciso, ultrapassar a esfera do diagnóstico puro e simples para atingir, como a realidade nesse tocante requer, o estágio das soluções compartilhadas e a sustentação dos programas cuja eficácia e continuidade produzam efeitos não só condizentes com essa realidade mas, sobretudo, capazes de refletir uma política de segurança pública cujas diretrizes e implementação há tanto vêm sendo anunciadas.
É preciso estancar o índice de desemprego, que está aumentando com a crise no nosso Distrito Industrial, pois enquanto houver desemprego e desigual distribuição de renda, o homem estará aviltado na sua condição humana, de gente querendo ser gente no meio do povo, no seio da sociedade. A fome é má companheira e impulsionadora dos vícios e dos malefícios sociais. O homem de hoje, principalmente o terceiro-mundista, como nós, vive inquieto e apreensivo com os sobressaltos de atos brutais engendrados nas alcovas das consciências de pessoas inescrupulosas, cujas mãos, envoltas em luvas de pelica, satanicamente, deformam a dignidade da criatura. Chegou a hora de se dar um basta.