Aproveitando o ensejo do Dia dos Namorados, comemorado anteontem, e deixando mais uma vez de lado o olhar crítico sobre a política, envolvo-me no momento, e enquanto escrevo, a manhã continua insultuosamente azul, a juventude irresistivelmente eterna, e o amor continua sendo a dor que desatina sem doer, como pregava Camões. Podemos ter paquera, flerte, caso, transa, envolvimento, paixão, mas namorada mesmo, é muito difícil. Então este momento é ideal para falar de sacanagem. Mas não pense o caro leitor que o assunto deste artigo, será ménage a trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludí-lo.
Pretendo, sim, é falar das sacanagens que fizeram com a gente. Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram para nós que amor não é racionado nem chega com hora marcada. Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais rápido.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação, que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm seu valor, já que não nos machucam, e que existe mais cabeças tortas do que pés. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.
Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples, só é ruim quando feito sem vontade. Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos. Carlos Drummond de Andrade, dizia que quem não tem namorada é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Dedico este artigo a todos que tem namoradas, boas companhias, sejam esposas, amantes, paqueras, azaração, pegação ou qualquer denominação que queiram dar.
Amar se aprende amando! Esta mão tá solta! Parabéns