Existem várias coisas para se fazer em um minuto e meio, além de um macarrão instantâneo. Pode-se tomar grandes decisões, fechar os olhos e olhar dentro de si, dar um abraço sincero, tirar ou mudar uma vida, ter uma grande ideia, e simplesmente descobrir que um momento que parecia ser emblemático, num encontro político, era na verdade um vergonhoso escambo de tempo na televisão. Uma farsa com tonalidades cômicas. A cúpula petista (leia-se Lula) comportou-se com a mentalidade e as deformações que, há décadas, têm dominado a política nacional. Daí a boa convivência com os inimigos do passado. Daí o vale-tudo em nome da governabilidade. Encarnam o que sempre criticaram.
O poder venceu o sonho. O pragmatismo manietou a coerência. A política trata da convivência entre diferentes, na pluralidade das ideias, na coexistência das diferenças, com interesses conflitantes, e segundo Maquiavel, a arte de conquistar, manter e exercer o poder. Mas é vil a troca de um minuto e meio na televisão, para aliar-se a um desafeto, conhecido por suas investidas nos cofres públicos, um canalha procurado pela Interpol. Mas os canalhas não têm passado moral a preservar. Não têm igualmente um nome a zelar. Nem muito menos estão preocupados com a opinião da sociedade a seu respeito. São servos de sua própria canalhice.
Por isso os canalhas são audaciosos. Não temem ser canalhas, desde que tirem proveito próprio de suas atitudes. E ser canalha populista em cargo público de destaque é ainda mais insidioso. Acredito, mesmo ainda em fase de engatinhar, que tais comportamentos, estão destinados ao fracasso. É só uma questão de tempo. A sociedade brasileira não suporta mais o esgar dos intocáveis. O País, queiram ou não os poderosos de turno, está virando uma página de sua história, que começou com a cassação de Fernando Collor e prosseguiu com a abertura de inúmeras caixas-pretas, e agora com a esperada cassação do “puro” Demóstenes.
As pesquisas mostram que a aliança por um minuo e meio foi desastrosa. A corrupção, independentemente do seu colorido ideológico, é o verdadeiro câncer que corrói o organismo nacional. É ela que alimenta a fome que a presidenta da República pretende combater. É ela que abandona os idosos que são maltratados por uma instituição que tem sido historicamente dominada pelo banditismo e pela incompetência. Chega de populismo, e o combate ao populismo na política é tão importante quanto o esforço à eficiência administrativa, à transparência na gestão e à criatividade dos governantes. Não é necessário recorrer a um estudo científico para constatar o que afirmo, basta observar a existência de uma alta correlação entre o subdesenvolvimento de um país e o grau de populismo dos seus políticos. Afinal, acreditar que existe “um salvador da pátria” é afirmar como dizia o saudoso Millôr Fernandes: “O povo que acredita em salvador da pátria não merece ser salvo.”