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02 de julho de 2012 - atualizado as 14:18

A Amazônia na Rio+20: perdendo espaço?

Ronaldo Pereira Santos

Em 1992, ano da Rio-92, as florestas tinham papel de peso nas discussões do clima. Comunidades indígenas ganharam vulto relevante e, de quebra, o evento aprovou a Convenção da Biodiversidade Biológica (CDB) – tendo com pano de fundo as florestas e, claro, seu principal ator a Amazônia.

Logo, no maior evento ambiental do mundo, ocorrendo no Brasil, se esperaria saudações especiais ao seu principal tesouro. Ao que se viu nos 15 dias de debates e discussões a Amazônia foi pouco lembrada.

Tirando aqui-e-acolá  os protestos isolados ou gritos de ordem da organização civil e de acanhados eventos de algumas ONGs, foram raros os espaços reais de discussão e proposições de relevo.

Para se ter uma ideia do desprestígio, por assim dizer, havia uma tenda  na Cúpula dos Povos – a versão da sociedade civil para a Rio+20 – unicamente para tratar da questão dos oceanos; diversos eventos ocorreram neste espaço tratando da questão da água. Muito justo, mas no mínimo há importância igual para a maior porçaõ do Brasil.

Esperava-se algo parecido para a principal e maior floresta tropical. Na agenda, contudo, não se viu nem mesmo um pequeno quiosque  do porte de sua importância. Como praxe, e lugar comum, tivemos o de sempre: venda de produtos exóticos da Amazônia, mas, ainda assim, recanteado.

Curiosamente, a Carta Final da Cúpula nem mesmo cita a Amazônia (!).Estaria a região saindo do foco ambiental planetário?

Tentativas
Bem que os governadores dos estados que compõe a região tentaram: em iniciativa elogiável, enviaram carta com a demanda do povo que aqui vive entregue diretamente à organização do evento (Pacto da Amazônia). Talvez a carta tenha até o simbolismo do protagonismo  (ou tentar sugeir) da visão dos amazônidas o que é muito justo, afinal décadas de planos e projetos oriundos de gente que mal conhece a região já mostraram serem inócuas.

Contudo,  na prática das negociações internacionais, sabemos que pouco efeito terá uma carta de intenções. Nem mesmo o governo brasileiro – diretamente envolvido – teria algum reparo em suas políticas tendo por base sugestões dos governos locais. Infelizmente, menos ainda veremos de resultado no que se refere à intenções de países.

Uma segunda iniciativa que teve a Amazônia no centro foi promovida pelo Conselho de Ciência Internacional, com apoio do membro brasileiro, a SPBC. Do ponto de vista do “pensar” com estratégia a região, nos parece que foi a principal iniciativa (maiores detalhes em leia aqui).

Outro ponto de relevo se deveu ao protesto contra a usina hidroelétrica de Belo Monte, no Pará. Ainda que limitada aos ativistas – o que geralmente leva a olhar com ressalvas- , viu-se uma forma de chamar atenção aos impactos que poderá trazer em empreendimento. Pouco, contudo, para o tamanho que o próprio tema tem não só para a Amazônia em si, mas para o mapa do desenvolvimento da região.

Os motivos do descrédito
O que leva a região mais valiosa do planeta – pensando-se em ativos ambientais e econômicos – ser praticamente colocada em plano secundário? Seria porque o desmatamento está “controlado”? ou, talvez, porque os seus outros problemas estariam resolvidos?  A resposta não parece simples.

Uma das tentativas de se incluir as florestas tropicais na discussão das mudanças climáticas foi ( e ainda é) a proposta REDD (Redução de Emissões por Desmatamento Evitado). Por outro lado, esta ideia perdeu força (a não ser por estar incluída no mercado voluntário e não na agenda oficial da ONU). Isso explica em parte o quase esquecimento pra Amazônia.

Ao fim e ao cabo, o dever de casa nos parece que passa por rediscutir a reinserção do espaço amazônico na agenda local, nacional e internacional. Como ponto de partida a sugestão é começar pelos dois grandes documentos produzidos no evento: a carta “oficial” da ONU e a da Cúpula dos povos, quais sinais eles nos trazem?. É um bom exercício.

Sobre o autor
Ronaldo Pereira Santos
Nascido na Bahia é Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Pós graduado em Gestão Ambiental e mestre em Ciências de Florestas Tropicais, INPA, Manaus. Colabourou com pesquisas em projeto do CNPq/Ministério do Meio Ambiente (MMA). Atualmente é Servidor Público Federal e consultor para: gestão rural e ambiental, avaliação de imóveis rurais e de ativos/passivos ambientais, recuperação de áreas degradadas (PRAD), licenciamento e avaliação de impacto ambiental. LEIA os outros artigos em: http://www.portalamazonia.com.br/blogs/author/ronaldosantos/
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» Comentários
Ronaldo Pereira Santos
2012-07-06 18:00:23
Responder

Valeu Villany!! Bem pensado! Obrigado pela leitura e comentário...

Vilany Carneiro
2012-07-06 16:03:18
Responder

É Ronaldo, eu também achei que a Amazônia seria o ponto alvo das discussões da Rio + 20, não que outros pontos relevantes não fossem discutidos. E o mais engraçado é que durante a Rio + 20, estava acontecendo em Bonito - MS, um encontro anual de Ecologia a ATBC 2012, onde reuniu a nata de pesquisadores estrangeiros e brasileiros que conhecem muito bem a grande diversidade da Amazônia e que poderiam com certeza nortear muitas das discussões sobre o papel que a Amazônia desempenha para o meio ambiente, no entanto as coisas acontecem num mundo paralelo, cada um discuti separadamente, coisas que se discutidas juntas, dariam um resultado final mais coerente.

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